Seguindo com o Semcine

Je Vous Salue, Marie (Idem, França, 1985)
Dir: Jean-Luc Godard

É muito comentada a polêmica causada por esse filme ao reprocessar a trajetória da Virgem Maria na concepção do filho de Deus. De fato existe semelhança, mas não vejo nada de tão polêmico no filme; imaginava uma narrativa bem mais anárquica. A história é dividida em duas partes, contando na primeira a infância de Maria (Aurore Clément), e a separação de seus pais, e tendo a outra já na fase adulta, quando a jovem Maria (Myriem Roussel) engravida mesmo sendo virgem e passa a ser acusada pelo namorado José (Thierry Rode) de o estar traindo. Não deixa de ser interessante os paralelos da narrativa bíblica com o mundo atual (o ambiente das grandes cidades, José como taxista, o anjo Gabriel como uma espécie de andarilho mau-humorado), embora tudo perca mais força por conta das estripulias de montagem e roteiro fragmentado de Godard, além das atitudes desesperadas e esquisitas da maioria dos personagens. Mais uma vez, as filosofias proferidas pelos personagens soam artificiais e também vagas, principalmente por uma Maria em processo de compreensão do mistério de carregar aquele filho na barriga.

O Conceito Juche (The Juche Ideia, EUA, 2008)
Dir: Jim Finn

Talvez esse filme tenha sido um dos maiores desastres dentro da Mostra Internacional. O cineasta norte-americano Jim Finn mistura documentário e ficção para falar da relação entre um sistema político de um país socialista, nesse caso a Coreia do Norte, com sua produção cultural. Ele se apega ao caso do cineasta do país vizinho do sul (capitalista) que foi raptado na década de 70 para revigorar o cinema norte-coreano. Nesse filme, o cineasta trata das escolas Juche, espécie de centros artísticos coletivos voltados para que os novos “talentos” sejam levados a incluir em suas obras os ideais de uma sociedade repressora, baseada no stalinismo autoritário. Dessa forma, eles são podados de praticar qualquer tipo de contestação ao sistema vigente através da arte. Como forma de denunciar essa situação, o filme se dá bem, mas esbarra no problema de não ter muito mais coisa a dizer do que isso e acaba por se tornar repetitivo e longo, apesar dos 62 minutos de duração.

O Pequeno Soldado (Le Petit Soldat, França,1963)
Dir: Jean-Luc Godard

Bruno Forrestier (Michel Subor) é um desertor da guerra da Argélia que se refugia em Genebra onde se envolve com um grupo revolucionário de direta, muito embora não seja fiel a nenhuma ideologia. Apaixona-se pela misteriosa Veronica Dreyer (Anna Karina). Nesse filme, Godard reflete sobre as incertezas do jovem do pós-guerra em se posicionar politicamente, uma juventude inquieta, quase perdida, mas que já ensaiava os primeiros passos para o viés revolucionário que culminaria com o Maio de 68. Realizado no mesmo ano de Acossado, a obra só estreou em 1963 por conta da censura do governo francês, e é a primeira incursão do cineasta no cinema político, algo bem distante dos ditames da Nouvelle Vague. Mesmo assim, é um filme sóbrio e conta com a graça do cineasta em filmar os descaminhos de seu personagem, por vezes ingênuo, que se divide ainda com o gosto pela arte. Em uma das melhores sequências, Bruno fotografa Veronica e discute com ela, no melhor estilo Godard, sobre a melhor hora do dia para se ouvir Mozart e Beethoven ou se Van Gogh era superior a Gauguin. Como já disse Glauber Rocha em Terra em Transe, “a arte e a política são demais para um homem só”. Talvez na tentativa de abraçar os dois, Bruno tenha se perdido no mundo.

A Chinesa (La Chinoise, França, 1967)
Dir: Jen-Luc Godard

A Chinesa é um dos últimos filmes do Godard antes de embarcar na onde do cinema militante. Se aqui ele revela grande aproximação com o socialismo, ele também deixa claro uma crítica aos jovens da burguesia francesa que passavam a aprender a doutrina comunista de Mao Tsé Tung e queriam empregá-la em prol da classe operária. Na história, um grupo de jovens (vividos por Anne Wiazemsky, Jean-Pierre Léaud, Juliet Berto), em férias, se fecha num apartamento e passam a discutir os ensinamentos do Livro Vermelho de Mao, enquanto planejam o assassinato de um representante do governo francês. Realizado em 1967, o filme não deixa de ser uma antecipação do Maio de 68, através da politização de uma juventude ávida por contestação. O primeiro momento do filme, que se passa dentro do apartamento, soa um tanto arrastado e repetitivo, embora a edição fragmentada e não-linear ainda conferem um charme à narrativa. Mas quando os jovens partem para a ação, a história fica mais interessante e rica em questionamentos, uma vez que os jovens militantes e idealistas podem ser vistos com a ingenuidade de seus atos.

5 thoughts on “Seguindo com o Semcine

  1. Assisti JE VOU SALU, MARIE já há um tempinho também, mas me lembro de não ter gostado muito. E justamente por isso que vc falou, as reflexões filosóficas dos personagens soam mesmo como vazias…
    Já A CHINESA achei um barato! Tem lá seus problemas, mas acho um filme revelador de um pensamento de um período, como vc bem disse. E até hoje tenho aquela musiquinha do Mao grudada na cabeça… rs.

  2. Wallace, Je Vous Salue, Marie é bem cansativo! Tem muito de exibicionismo no filme. E A Chinesa é legal, mas no começo tem muita encheção de saco. E olha que eu esqueci de falar da musiquinha do Mao que eu também gosto, bem chiclete.

    Gustavo, também achava que podia ser mais chato, mas nem tanto. A primeira parte pode ser um tanto arrastada, mas serve para apresentar a ideologia aprendida pelos jovens revolucionários da época. Muito interessante e revelador.

    Pois é Diego, o Seminário foi interessante mesmo, realiza-se anualmente em Salvador e esse foi a minha primira participação. Quero voltar mais vezes.

    Ah Wanderley, tu vai ter que aturar mais uns dois post aqui sobre o Semcine. Vê se da próxima vez você se programa para participar. rsrsrsrsa

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