Olhar de Cinema: Vento Seco

Daniel Nolasco é um dos nomes proeminentes do cinema feito atualmente em Goiás, produção pulsante, e nesse seu terceiro longa, primeiro de ficção, já era de se esperar toda uma carga de fetichismo sexual, mirando a erotização dos corpos masculinos, assumindo muito frontalmente esse olhar voyeurista que pertence ao próprio protagonista. Ao mesmo tempo, o filme se insere numa tendência mundial de explorar a estética do neon, uma espécie de “neonfilia” a acentuar uma atmosfera muito própria para o filme, mas por vezes exagerada, como um fetiche pouco dosado (seria possível domá-los?) pela luz neon, mas que, por outro lado, é capaz de revelar determinadas pulsões e nuances que cercam o próprio conceito do filme.

Nessa já sólida filmografia em que a erotização do corpo masculino e o olhar fetichista são naturalizados e redimensionados dentro das narrativas, Vento Seco pode ser tomado como o ápice desse tipo de representação descaradamente deleitosa em que a busca pelo prazer é uma constante até mesmo cotidiana. Sandro (Leandro Faria Lelo) é um homem de meia idade que trabalha numa fábrica de fertilizantes e é muito bem resolvido com sua sexualidade. Tem encontros tórridos nas matas, carros ou clubes privês com outros homens e em especial com o colega de trabalho Ricardo (Allan Jacinto Santana). Diferente deste, no entanto, busca apenas relações fortuitas, sem compromisso. As coisas mudam quando um novo e misterioso funcionário chega à fábrica, acendendo os desejos, não apenas de Sandro.

Vento Seco podia se entregar a um tipo de exercício puramente exibicionista – sendo tão explícito em filmar sexo, taras e devaneios eróticos –, mas busca ampliar essa experiência a partir de algo mais sólido, uma vez que muitos desses desejos escapam da pura fantasia do protagonista. Entram em jogo as marcas do melodrama e, como pano de fundo, a luta sindical encabeçada por sua melhor amiga, Paula (a atriz e mulher trans Renata Carvalho), assim como as pontuações sobre uma cidade que teve sua própria geografia alterada por força do capitalismo incorporado no agronegócio que se imbricou àquela região.

Nolasco e seus parceiros criativos possuem um senso estético realmente afiado para compor luz e quadro, como o diretor já demonstrou em outros curtas e também em cenas pontuais de Mr. Leather, especialmente aquelas de tom mais ficcional – e é uma pena que o filme caia tanto em qualidade quando assume o documentário mais tradicional, não menos importante, mas mais descuidado – e mesmo num filme de observação como Paulistas. Vento Seco, por sua vez, ao olhar horizontalmente para os desejos de Sandro e toda essa pulsão homoerótica que o ronda, traz consigo os dilemas do personagem que não passam mais pela necessidade de ser aceito, mas antes de aceitar o amor do outro.

O cineasta elege o neon como modo de encapsular essa trama e oferecer para o personagem um campo mais seguro de possibilidades e entrega para os seus desejos mais inconscientes, e poderíamos supor que isso se deve ao fato do pensamento de Sandro muitas vezes ser tomado por tais fabulações. Porém, nos momentos mais pé no chão, em que esse mesmo registro sexualizado não desgruda da história, o neon permanece como marca de estilização, parecendo mesmo deslocado pelo uso em excesso, forçado, quase como um exibicionismo pirotécnico uma vez que seu uso no filme já está mais do que acentuado.

Por outro lado, seria possível arriscar uma dedução de que tal excesso de luz antinatural remeteria a algo idílico e fabular, apontando para um universo em suspensão (não necessariamente distópico), em que a fruição e exposição desses desejos fossem possíveis e compartilháveis entre aqueles personagens sem amarras, caricaturas ou insinuações de perversão e sujeira, muito comuns nesse tipo de representação. Seria um gesto narrativo assumido pelo filme como a oferecer àqueles homens um lugar de trânsito livre dos desejos na medida em que não há no filme nenhum risco ou algum mal inibidor, algo que ameace aqueles personagens pelo simples fato de serem gays e exercitarem livremente suas pulsões mais íntimas – com exceção do irmão de um dos personagens que age com violência diante do que vê. Ainda assim, eles estão como que “protegidos” e livres para experiências que antes eram apenas secretas e reprimidas, mesmo numa cidade do interior de Goiás que, como em qualquer cidade brasileira, especialmente no interior do país, possui tendências conservadoras e homofóbicas tão fortes.

Nesse sentido vale destacar a cena em que Sandro lembra a história de um antigo vizinho, um homem que levava uma vida sexual assumidamente gay e pública, livre das amarras sociais, na cidade de Catalão (cidade de origem do próprio Nolasco) e que acabou sendo morto a facadas 10 anos atrás. Essa história é contada como algo que pertencesse a um passado que não deve mais se repetir, não mais permitido e naturalizado. Vento Seco frontaliza esse combate ao dedicar espaço em semelhante medida para o erotismo, mas também para os afetos, o ciúme, os desejos mais imediatos e aqueles que exigem permanência, entrega e demora.

Vento Seco (Brasil, 2020)
Direção: Daniel Nolasco
Roteiro: Daniel Nolasco

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