Olhar de Cinema: O Dia da Posse

O sobrenome já é de presidente: Brendo Washington. Presidente americano, mas vá lá. O rapaz se imagina daqui a alguns anos sendo empossado líder máximo do Executivo brasileiro. Antes disso, ele segue estudando Direito, imigrante baiano de origem humilde que mora no Rio de Janeiro. O rapaz é amigo do realizador Allan Ribeiro. Trancados num apartamento nos últimos meses, Allan mira sua câmera para o cotidiano em conjunto dos dois, mas encontra em Brendo uma força de fabulação à serviço de um tipo de cinema que lhe parece muito familiar.

Em boa medida, os filmes de Allan se fazem a partir de um retrato de intimidade que se estabelece na relação que ele trava com esses sujeitos e sua câmera (ou suas câmeras). Era assim em Mais do que Eu Possa Me Reconhecer, um filme em que o jogo com o aparato do cinema era mais evidente, e também em Esse Amor que nos Consome, longa codirigido com Douglas Duarte, em que a aproximação se fazia muito a partir de um desejo de criação conjunto, mesmo que com fins aparentemente distintos, mas que se complementavam – a dança e o cinema.

Curiosamente, na cronologia, os longas demonstravam cada vez mais uma redução do espaço filmado, iam adentrando lugares mais cerrados, ganhando uma forma inevitável com este O Dia da Posse, sendo um filme feito na pandemia sob a marca do isolamento social. Mas é possível lê-lo não apenas como um filme de confinamento por conta das contingências atuais, mas antes pelo interesse mesmo do cineasta em se conectar intimamente com o outro e com ele criar, o que parece exigir uma maior concentração num espaço menor. Por outro lado, não há de se negar que a experiência do isolamento atual transborde no filme a partir de outras inquietações naturais, como a de espiar os vizinhos à busca das atividades noturnas que podem ser vistas por suas janelas de luzes acesas, à lá Coutinho.

De qualquer forma, nesse tensionamento de forças de criação, há uma diferença central no cerne deste filme que modifica sua própria estrutura e construção, na comparação com os demais: Brendo não é um artista, no sentido estrito do termo, como o eram Darel Lins e a dupla Barbot e Gatto, personagens dos longas anteriores que já traziam para os filmes suas inquietações artísticas. Daí que a relação de cocriação entre cineasta e seu novo parceiro de cena ganha outras nuances, e O Dia da Posse se torne um filme muito mais dependente de situações que precisam ser sedimentadas previamente pelo diretor – pelo menos aparentemente por ele.

Entra em cena a amizade entre Brendo e Allan e os gatilhos que este último sabe provocar no primeiro. Brendo tem essa relação com o posto da presidência, vindo talvez de seus estudos no Direito, mas também uma proximidade com os shows populares, da novela ao Big Brother. E com isso o filme se abre a um processo que, menos do que uma fabulação ampliada e consistente em termos narrativos, funciona mais como um gesto de escape que se dá pela via da imaginação.

O filme busca provocar, portanto, momentos em que tais lampejos aparecem (ou quando eles são mais propícios de emergirem, por conta dos humores do próprio Brendo, isso sem contar os acordos e “armações” que há nos bastidores entre os dois). É aí que se sente certa dificuldade do longa em amarrar suas pontas e até mesmo em revelar com solidez suas intenções nos primeiros minutos, na medida em que ele tateia por muito tempo uma forma de se apresentar como narrativa, como se perfizesse um ensaio de cinema – que, não coincidentemente, é o título de um dos curtas anteriores de Allan.

Há espaço para indicar um cotidiano na pandemia, sonhos e devaneios de um garoto humilde, o presente que é reflexo do passado, até mesmo as relações familiares sustentadas por chamadas de vídeo, ou pela memória mesmo. E há, claro, o pronunciamento oficial de posse de Brendo, bem como seu discurso de eliminação do reality show. Há muitos elementos aí e nem sempre o filme consegue equilibrá-los com a mesma força narrativa com que os convoca, na medida em que essencialmente faz um perfil de um jovem com anseios muito palpáveis. O menino de vida pobre que fabulava sobre a falta de comida em casa é o mesmo que hoje sonha alto, ou apenas sonha solto. Poderia ser um Brendo da Silva. Nome de presidente.

O Dia da Posse (Brasil, 2021)
Direção: Alan Ribeiro

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