Olhar de Cinema: A Metamorfose dos Pássaros

É uma tendência mundial essa, nos últimos anos, dos realizadores voltarem-se para si e para suas famílias como matéria-prima para compor suas narrativas, contar histórias íntimas e pessoais, investigações particulares que inquietam e brotam do âmago dos indivíduos. E é mais comum ainda que muitos desses filmes, por se voltarem tanto para si mesmos, que eles se esquecem do espectador, na medida em que os sentimentos ali expostos em tela são tão pessoais e internalizados que se cria mesmo uma barreira entre o cineasta e seu interlocutor – e o cinema, dentre outras coisas, é uma forma de comunicação, de conexão estabelecida, só se completa com o outro quando vê.

Curiosamente é nesse gesto que trafega a realizadora portuguesa Catarina Vasconcelos nesse muito bonito A Metamorfose dos Pássaros, muito embora exista uma diferença que distingue seu filme de tantas outras experiências de escrita de si no cinema contemporâneo (e ser bonito aqui não é necessariamente um elogio recompensador uma vez que muitos desses filmes que falam dos próprios diretores podem ter sua beleza elevada a grandes potências e ao mesmo tempo serem vazios e desinteressantes). E essa diferença é mesmo difícil de explicar porque o filme tem todos os elementos para uma abstração como tantos outros, mas há também um esforço de comunicação que alcança um sentido raro de partilha num filme como esse.

Vasconcelos trabalha no limiar das artes visuais, estabelece uma polifonia de vozes que dão conta de trazer para o filme os muitos membros de sua família, embaralhados no tempo e no espaço, percorrendo décadas e desejos os mais diversos, pensamentos e reflexões que cruzam distâncias e desembocam numa crônica poética familiar das mais convidativas. E é isso, o filme convida o espectador a participar daquele emaranhado de histórias e memórias – muitas delas que a própria diretora coletou somente nos últimos anos – e faz isso através de composições visuais que a diretora escolhe para ilustrar as falas e as tramas que estão sendo relatadas pelos muitos narradores – e pouco importa em que medida exata elas são verídicas ou reelaboradas (inventadas, para ser mais exato) pela diretora/roteirista.

É como se cada cena ou sequência encenasse de alguma maneira não uniforme, talvez apenas em um pequeno detalhe, aquilo que está sendo narrado e se esforçasse para traduzir em imagens e sons as experiências vividas (ou apenas sabidas e escutadas) com um tom de inventividade que vai da abstração à objetividade, lançando-se para não apenas uma, mas para uma série de possibilidades de significados partilhados com o espectador, na mesma medida em que tais sequências, ou tableau vivants, lançassem suas próprias proposições interpretativas que não carecem de ser aceitas, apenas entendidas como possibilidades de leitura.

Esses blocos de cena guardam uma nova surpresa a cada corte, a cada mudança brusca de cena e mesmo de temporalidade, e um dos trunfos do filme é manter um padrão de coesão de qualidade lírica que se estabelece desde o início do longa. Não é um tarefa fácil e há algo mesmo de um rigor formal que pode até mesmo soar muito estudado ou calculado, mas que se sustenta enquanto modo de narrar, modo de comunicar e prender o espectador àquela viagem que nada mais é do que puramente cinematográfica na sua composição orgânica de elementos. Vale destacar aqui que a relação íntima entre texto e imagem é fundamental para o sucesso desse encantamento que o filme provoca – sendo tal narração também um amálgama de fontes, desde as cartas trocadas no passado entre seus avós, os depoimentos de outros membros da família até as percepções e intimidades expostas pela própria realizadora –, tudo isso possibilita que o filme seja mais do que apenas aquilo que se dá a ver e a escutar, mas uma terceira via de compreensão que é a soma disso tudo, junto às sensibilidades de quem frui dessa experiência do outro lado da tela.

É um típico filme que parte de um questionamento aparentemente banal (“como encenar memórias?”, ora pois) e encontra nessa comunhão de colcha de retalhos a melhor resposta dentro da capacidade imaginativa que a diretora dispõe na sua sensibilidade afetuosa e também imbuída de descobrir e revirar o baú de memórias familiares. Entre tantas temporalidades e os vários braços da família – com especial destaque para a avó que não conheceu e a mãe da realizadora que faleceu precocemente –, forma-se uma árvore genealógica que se ramifica despreocupadamente, tomando suas liberdades e ramificações (fabuladas ou não). Há outro aspecto no filme que reforça esse sentido de organicidade quase pura: a simbiose com a natureza, flagrante em tantas passagens do filme, seja na experiência curiosa das crianças, seja na comunhão e busca pessoal de cada um nos rumos que seguem na vida adulta. No fundo, o filme parece dizer, estamos todos em processo de metamorfose.

A Metamorfose dos Pássaros (Idem, Portugal, 2020)
Direção: Catarina Vasconcelos
Roteiro: Catarina Vasconcelos

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