Noite de lembranças


Mais uma vez o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima se encheu para esse que é um dos eventos já consolidados no calendário cultural da cidade. Se o curta-metragem Haruo Ohara não parece ter agradado tanto, Uma Noite em 67 fez a alegria do público (muito embora a ideia de iniciar o evento com um documentário musical seja um tanto rasteira, pois esse tipo de filme é garantia de sucesso). Mas vamos aos filmes da noite:

Haruo Ohara (PR/BR, 2010)
Dir: Rodrigo Grota

Rodrigo Grota, em seus trabalhos como curta-metragista, já é dono de um estilo muito bem definido (visual e narrativamente), algo perceptível nos três filmes de sua Trilogia do Esquecimento, formada pela pérola Satori Uso, Booker Pittman, (ambos já exibidos em edições anteriores da Mostra) e esse Haruo Ohara. Se com os outros filmes o diretor se mostrava mais ousado em confundir o documentar e o encenar, seu mais novo projeto é menos ambicioso nesse sentido, se aventurando em apresentar o personagem-título (real) e sua admiração em registrar, a través da fotografia, o dia-a-dia de seu povo, imigrantes japoneses que se fixaram no sul do país. De quebra, o filme apresenta belas imagens de uma Londrina que parece emanar da memória do próprio cineasta. Fora isso, é mais um olhar de observação poética, mas sem muito a acrescentar. Gosto mais quando ele busca a reinvenção.

Uma Noite em 67 (RJ/BR, 2010)
Dir: Renato Terra e Ricardo Calil


Os festivais de música, que alcançaram seu apogeu na década de 60 e continuaram com menos fôlego pelas duas décadas seguintes, contribuíram enormemente para a agitação cultural do Brasil em plena Ditadura Militar. Com certeza, o mais importante deles foi o III Festival de Música Popular Brasileira, em 67, realizado pela rede Record, reunindo um time de primeira grandeza dentro da música brasileira, num misto de valor musical e contestação política.

Se nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Os Mutantes, Nara Leão, Elis Regina e até mesmo Roberto Carlos (interpretando um samba, num belo resgate de imagens esquecidas) hoje têm seu lugar garantido no panteão dos grandes de nossa música, naqueles idos dos 60, não passavam de promessas, assim como tantos outros que ficaram ou não pelo caminho. Daí a grande aura de endeusamento que paira sobre esse evento em especial.

Ao mesmo tempo em que suscita várias questões interessantes para a época, como a participação sempre exigente do público (que vaiou e descontrolou o candidato Sérgio Ricardo, levando-o a quebrar o violão e lançá-lo na plateia) ou a resistência em torno da utilização da guitarra elétrica na música brasileira, o documentário ainda faz um grande uso de imagens de arquivo, e talvez seja esse o seu maior trunfo.

Isso porque toda a emoção, a agitação político-cultural, os reflexos posteriores na música, que tanto estão ligados a esse festival (e ao momento histórico-cultural em que ele se insere), tudo isso encontra nessas imagens sua própria comprovação.

Não à-toa o filme começa com a execução, sem nenhum tipo de apresentação, da grande vencedora daquela grande noite: Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, defendida pelo primeiro e Marília Medalha, momento que por si só já emociona pelo registro. Taí a força da imagem que nos leva diretamente à outra questão: a do resgate. Pois parece cada vez mais importante manter e mostrar à novas gerações um acervo de momentos que deveriam ser inesquecíveis para o país.

São essas imagens também que revelam toda a participação da platéia, desde as reações positivas/negativas, sempre muito espontâneas, até a empolgação por determinadas apresentações. Há também um rico material de bastidores que expõe um clima um tanto tranquilo por trás do palco, apesar do peso do momento. E essas imagens, a partir de uma montagem paralela muito bem organizada, ganham complemento com os depoimentos atuais de grande parte daqueles que ali estavam construindo uma noite inesquecível. Fazendo história.

PS: Infelizmente, a projeção, principalmente do curta em preto-e-branco, foi bastante prejudicada por uns riscos rosa que surgiam na tela, estragando a fotografia da obra e atrapalhando a apreciação dos filmes. A projeção digital do ano passado não estava assim, não!

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