Mostra SP: Dente de Leite

A sinopse do filme engana um pouco. Dente de Leite promete ser a trama de uma garota de classe média-alta australiana que se apaixona por um jovem traficante de drogas. Assim, faz supor a história de um amor bandido, desses escandalosos em que a menininha da família burguesa choca os pais e a sociedade num vínculo inesperado e avassalador. Nada mais equivocado.

Dente de Leite integra-se a certo cinema indie sobre gente excêntrica em situação de vulnerabilidade emocional, ao mesmo tempo exóticos em seus conflitos por vezes muito sérios. Trafega no limite do bizarro com a doçura, e quando uma parece que vai tomar o filme por completo, a outra vem de trás e dá um esbarrão. É bem assim que Milla (Eliza Scanlen) conhece Moses (Toby Wallace) na estação de trem. O primeiro contato entre os dois, nos minutos iniciais do filme, sugere um encontro atrapalhado, nada romântico, o universo de ambos completamente distintos, mas a sintonia entre eles é evidente, está no olhar. A partir dali eles não se desgrudam mais.

Pra quem desconhecia tal filiação indie do projeto, a relação expectativa/realidade pode ser bastante conflituosa na medida em que não se trata de um filme de fácil adesão. Esse tom de cinema independente feito com algum recurso – ou seja, apropriando-se mais de uma estética do que sendo necessariamente fruto dela – pode causar certa aversão por supor algo que já vimos por aí antes.

Além disso, o filme parece bem marcado por algum tipo de cacoete indie, especialmente na maneira como apresenta os personagens e suas camadas. Descobriremos, por exemplo – e da forma mais banal possível – que Milla possui uma condição de saúde grave; por sua vez, saberemos que Moses não pode nem chegar perto da mãe e do irmão pequeno por conta de restrições judiciais, uma vez que ele já causou danos demais à família num passado recente.

Apesar desses tiques e de outros mais – sempre este ar de estranheza inerente, nas atitudes e nas falas dos personagens –, o filme consegue encontrar sua própria força dentro do universo que constrói, mas carece de um certo tempo para decantação e maturação – o que havia de apressado naquele início vai ganhando nuances curiosamente mais abrandadas no decorrer da narrativa. É como se ele nos vencesse pelo cansaço – e pela solidez da proposta –, algo que não necessariamente tem o mesmo resultado para todos os espectadores.

É possível até mesmo se acostumar com certas espertezas formais, como a divisão narrativa em pequenos capítulos que ganham títulos engraçadinhos e inusitados. Mas a força do filme está no desenho dos personagens, transformando suas neuroses e manias em empatia. É quando o estranho no filme é redimensionado em camadas mais substanciais, ainda que nem sempre o filme consiga justificá-las no campo narrativo.

A figura dos pais de Milla é um ótimo exemplo. Eles começam o filme como os adultos que tentam cercar a filha de carinho e cuidado, meio abobalhados sem saber como lidar com aquele relacionamento “equivocado”; aparecem literalmente chapados e em busca de algum tipo de ocupação que lhes tire o peso dos problemas do mundo real – seja via drogas ou em tentativas de aventuras sexuais fora do casamento. Além do mais, eles possuem ótimos intérpretes nos atores Ben Mendelsohn e Essie Davis.

Até mesmo Moses é retirado da caricatura do jovem inconsequente, e o filme consegue enxergar certa sensibilidade nele, ou naquilo que se modifica no personagem a partir da presença e dos cuidados que Milla inspira. Enfim, essa roupagem carinhosa, esse arzinho de poesia e melancolia no tratamento de temas barra-pesada, é o que sustenta a trama do início ao fim. Pode não ser novo enquanto roupagem, mas tem uma sinceridade muito latente e trabalhada na costura que embala o todo do filme.

Dente de Leite (Babyteeth, Austrália, 2019)
Direção: Shannon Murphy
Roteiro: Rita Kalnejais

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