Mostra SP: A Noite do Fogo

É uma constante no cinema mexicano narrativas que envolvem um estado de violência e o mundo cão underground que assola o país, ainda mais nas zonas periféricas e no interior, isso porque as coisas realmente não são fáceis por lá quando o assunto são os cartéis de droga e a atuação do narcotráfico. A Noite do Fogo é mais um desses filmes, preocupado com uma denúncia social, mas também com a dinâmica sobre o que é crescer e se entender no mundo, inserido num ambiente de hostilidades históricas, sendo mulher nesse ambiente de opressões por muitos lados.

Ao mesmo tempo, e por mais que a violência ronde a trama do início ao fim, é também um filme que se distancia de muitas produções afins porque não busca o registro da violência gráfica, da exploração da dor e do sofrimento por meio do apelo visual chocante, mesmo que ele esteja lá e em algum momento não será mais possível ignorá-lo.

O filme da diretora Tatiana Huezo mira um ambiente bastante específico de uma comunidade no interior do país, aos pés de uma área montanhosa, tendo à frente como testemunha das opressões a pequena Ana (Ana Cristina González, quando criança) e suas amiguinhas que vivem entre as plantações de papoulas (de onde muitos tiram o sustento da família, produção sob o comando do narcotráfico), a escola do povoado (onde se misturam numa mesma sala de aula crianças de idades distintas) e a humilde casa onde vive apenas com a mãe, já que o pai ausente se foi há muito tempo para os Estados Unidos. Ana possui laços de amizade com outras três meninas do lugar, amigas inseparáveis que vão dar o tom do filme de formação que se desenha para nós.

É através desse meio tom que o filme se movimenta. É como se ele quisesse ser apenas o relato do desabrochar dessas garotas para a vida adulta, mas precisasse ser atravessado por uma realidade brutal à espreita delas. O filme trabalha com sutilezas que não nos deixa antever o todo com clareza; carros sobem e descem a serra cheio de homens encapuzados, armados e mal encarados, que confronta até mesmo as forças policiais, o que sugere o conflito e os desmandos dos donos do narcotráfico na região – inclusive a partir das disputas entre facções rivais. Tais detalhes nunca são devidamente explicados pelo longa, apenas sugeridos, e eles bastam para nos situar no clima de tensão constante do lugar, especialmente para as famílias de meninas, já que tem sido comum que garotas sejam roubadas, raptadas para nunca mais voltarem ao lar, tragédia que vai se tornando cada vez mais próxima das nossas protagonistas.

Em determinado momento, um professor novato na região faz uma reunião com as mães dos alunos para pedir explicações sobre aquela situação e o clima geral de apreensão, mas nenhuma delas se atreve a denunciar o fato. O silêncio autoimposto é mais uma violência que aquelas mulheres aprendem a carregar, algo que suas filhas absorvem, assim como os modos de se preservar e se proteger – logo no início do filme, vemos as meninas brincando de cavar esconderijos no chão para, posteriormente, o filme nos apontar que, mais do que uma brincadeira, aquilo é também uma estratégia de sobrevivência.

É nesse ambiente de hostilidades que crescem as garotas, e Ana (interpretada na fase adolescente por Marya Membreño) observa a tudo com olhar atento e certa independência. O filme se inscreve na linha do naturalismo mais cru, muito comum no cinema latino-americano, sendo uma adaptação livre do romance Reze pelas Mulheres Roubadas, da autora americana-mexicana Jennifer Clement. O livro carrega já aí uma construção narrativa baseada numa realidade inscrita no estado de Guerrero, no México, onde de fato os raptos de garotas são comuns, e as mães tentam preservar suas filhas – mantendo nelas, por exemplo, um corte de cabelo curto para que elas pareçam meninos.

No entanto, na mesma medida em que o filme é muito eficiente em nos situar nesse contexto todo, muito rico nos detalhes dessa representação de um ambiente de circunstâncias muito específicas – e adversas –, ele também carece de maior coesão entre seus elementos, até para que os dados não fiquem por demais soltos na trama. Os momentos em que acompanhamos as crianças nas suas pequenas descobertas inocentes introduzem bem a trama, mas quando as alcançamos na fase adolescente, as demandas e os problemas continuam os mesmos, bem como o clima geral de apreensão e medo que volta e meia reaparece a partir de mais uma caso de violência e rapto de uma das garotas da vila.

Huezo guarda para o final os momentos de maior tensão quando a protagonista encara, dessa vez muito fortemente, uma ameaça que apenas rondava a vida daquele povoado e que agora se insinua à sua frente. Há um cuidado na maneira como a diretora retarda esse embate, preferindo investir em outras interações que se dão entre Ana e demais personagens, inclusive um garoto que se insinua como interesse amoroso, mas o filme acaba adiando demais certas discussões e enfrentamentos que apenas se insinuam ao fim, e que não chegam a ganhar concretude. Na vida daquele povoado, talvez sejam possibilidade que lhes são, violentamente, negadas.

Noite do Fogo (Noche de Fuego, México/Alemanha/Brasil/Qatar/Argentina/Suíça/EUA, 2021)
Direção: Tatiana Huezo
Roteiro: Tatiana Huezo

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