Mostra Cinema Conquista – Diário #9

Tela (SC/BR, 2010)
Dir: Carlos Nader

Mais um curta desconcertante nesta Mostra. Tela põe em cheque não só o lugar do espectador na sala de cinema, mas também do personagem que vai ao cinema e se depara com um filme sobre uma plateia, assim como ele, assim como nós. Além disso, tem um forte assento na metalinguagem e usa isso para, de imediato, questionar a própria ideia de recepção da obra de arte (neste caso a obra fílmica), no sentido de como aquilo que vemos na tela pode mexer conosco, e de formas diferentes dos outros espectadores.

Quando o personagem de Luis Miranda percebe que o filme na tela é uma reprodução de uma platéia no cinema, ele não consegue ficar impassível, enquanto todos os outros na sala (inclusive sua namorada) parecem atentos à projeção. Discute-se assim, a ideia de filme “cabeça”, seja lá o que isso for, mas também a necessidade de sempre se ter uma explicação lógica para tudo que vemos. Sonho se mistura com realidade e isso tudo se confunde com filme projetado. Tela, da forma mais generalizante, é sobre como lidar quando a imagem de um espelho te desafia, sendo que esse mesmo espelho está apontado para você.

Calma, Monga, Calma! (PE/BR, 2010)
Dir: Petrônio de Lorena

Um clima policial com pitadas de horror é o que esse estranho Calma, Monga, Calma! procura estabelecer, por vezes se utilizando da linguagem da reportagem televisiva para contar a estranha história dos ataques que uma provável mulher-fera vem realizando na noite recifense, em especial atacando homens em cinemas pornôs ou casas noturnas. Alguns dizem se tratar de uma mulher gorila, como quem se transforma em besta.

O filme mantém escondida, a todo o momento, a identidade desse algoz, assim como filma sutilmente seus ataques, reforçando assim o clima de mistério. Uma pena que a narrativa se mostre por demais confusa, sem um personagem que guie o enredo ou alguma outra peça central da trama. Não sabemos quem ela é, de onde saiu e por que ataca as pessoas; e o filme vai terminar sem essas respostas. A investigação policial é mal desenvolvida, assim como a escolha de perguntar às pessoas na rua (em imagens que parecem reais) o que acham daquela situação. Ou seja, é confuso, sem foco, mal resolvido e quando menos se espera, acaba. Frustrante.

O Homem que Não Dormia (Idem, Brasil, 2011)
Dir: Edgard Navarro


Apesar de ter uma carreira bem consolidada de curtas e médias-metragens, de onde se destaca SuperOutro (até então seu melhor trabalho, um grito inteligente de anarquia), o baiano Edgard Navarro ganhou maior visibilidade ao sair cheio de prêmios (seis, no total) do Festival de Brasília de 2005 pelo seu bem acabado Eu Me Lembro, estréia do diretor no longa-metragem. Justo por isso, seu mais novo trabalho, O Homem que Não Dormia, trazia uma certa expectativa.

O filme, que encerrou a Mostra Cinema Conquista este ano, foi bastante aplaudido no final, embora a reação geral de confusão era perceptível pelos comentários pós-sessão. Existe muito de anarquia no filme, além de uma vontade latente em contar sua história, mas muita coisa morre na praia porque nem só de intenções vive o cinema.

Parece até que a distinção dos prêmios recebidos anteriormente subiu à cabeça do realizador que, para seu novo projeto, não se preocupou tanto com o foco de sua narrativa, embarcando numa espécie de egotrip autoral, uma vez que o filme tem muito da verve polêmica e escrachada que acompanha Navarro por toda a sua produção, inclusive fazendo parte de sua própria pessoa.

E essas são, na verdade, grandes qualidades, mas neste filme gera uma narrativa confusa e sem liga, como se a todo momento houvesse a impressão de alguma coisa está faltando, apesar das várias boas ideias espalhadas. O mais interessante é descobrir que a história acompanhava Navarro há mais de trinta anos, para só agora ganhar forma.

Numa cidade do interior baiano, cinco pessoas vivem atormentadas por um mesmo pesadelo que não os deixa dormir, envolvendo um barão, um tesouro escondido e trovões. Quando um peregrino (Luiz Paulino dos Santos) chega à cidade, as pessoas o reconhecem como o personagem do sonho, agora um tanto mudado, homem fadado a nunca dormir, perambulando pelo mundo como um andarilho.

Dito assim, parece tudo no seu lugar. Mas Navarro embaralha as histórias dos personagens, apresentando-os a partir de certos estereótipos (o padre sem fé, a mulher de vida livre, a esposa infiel do coronel, o louco torturado pelos militares, o epilético). Apresenta também os flashs da “lenda” do barão que traiu seus companheiros para ficar com um tesouro, acabando por amaldiçoá-lo a peregrinar pelo mundo eternamente sem dormir. Na mesma medida em que muita coisa fica sem explicação (e isso nem é o grande problema), há uma despreocupação em contextualizar a história e a trajetória dos personagens, tornando tudo muito solto no filme.

Existe ainda uma atmosfera que se quer anárquica porque é explícita. O diretor faz questão de dar destaque ao nu, com closes das genitálias de seus atores, numa tentativa de “chocar”, mas que peca por soar gratuita e muitas vezes forçada. É quase infantil na sua forma de chamar atenção. Em Eu Me Lembro, por exemplo, esse nu existe, mas é apresentado com muito mais naturalidade dentro da narrativa, possui uma razão de ser. Talvez seja esse um ranço do qual Navarro não consegue fugir.

Por outro lado, é interessante notar como a marca visual do cineasta, bastante evidente em Eu Me Lembro, retorna aqui na textura limpa e rebuscada da fotografia, dessa vez ganhando ares mais sombrios e, por vezes, até exagerados. A constituição do ambiente interiorano também é dos mais felizes (não à toa já recebeu prêmio por sua direção de arte).

Em O Homem que Não Dormia as diatribes de Navarro, dessa vez, parecem gratuitas e pouco estimulantes. De provocação por provocação, o cinema já está cheio, e a produção brasileira precisa menos de invenções e mais de consciência criativa. Vontade e vigor, Navarro parece ter de sobra, basta aliar isso a sensatez. Que ele durma bem para pensar no próximo projeto.

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