Mostra Cinema Conquista – Diário #5

Um Outro Ensaio (RJ/BR, 2010)
Dir: Natara Ney

Um Outro Ensaio começa lançando um olhar bastante redentor para sua protagonista, uma deficiente visual. Ela é casada com um homem sem a deficiência e revela uma independência incrível nos afazeres domésticos da mesma forma que transita nas ruas com muita desenvoltura. O texto do curta, ao focar na convivência dos dois, acaba expondo também a intimidade do casal, num clima isento de moralismos, tipo de tom sempre bem-vindo.

Se essa primeira metade sugere uma certa concessão a essa mulher, pois devemos acreditar em toda sua independência, a segunda parte do filme vem para mudar essa perspectiva e complexificar a discussão sobre as possibilidades e limitações dos deficientes visuais. Mas faz isso através de um golpe de roteiro que parece sabotar o início do filme, apostando numa solução que pretende ser defendinda como uma possibilidade necessária e viável, se esforçando bastante para deixar o espectador feliz ao fim da sessão. Pergunto-me somente se as coisas parecem tão fáceis como o filme tenta demonstrar.

Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo (RS/BR, 2010)
Dir: Rodrigo John

Assim como faltam mais curtas de animação nessa edição da Mostra (esse é o único, na realidade), falta também muito do vigor e da criatividade desse curta nos outros representantes. Céu, Inferno e Outras Partes do Corpo vem marcado pela estranheza, pela inquietação, justamente suas maiores qualidades. Nele, cães com feições e comportamentos humanos (ou seriam humanos agindo como cães?) povoam um mundo caótico, como se a narrativa do filme pertencesse a outra realidade, inteiramente subjetiva. O traço tradicional da animação reforça ainda mais esse caráter de devaneio.

Uma chave possível de interpretação pode recair sobre a relação entre paixão e loucura, pois o cão protagonista parece estar vivendo uma ressaca de amor depois de ser dispensado pela companheira da qual não consegue parar de pensar. Por isso seu mundo (um universo particular) soa totalmente descabido, desregulado, fora de órbita. Mas o peso desse estado de “fossa” é quebrado por um humor negro gritante (personagem coloca o coração pra secar no varal e guarda o cérebro na geladeira antes de sair de casa, entre outras bizarrices), quando por fim, cai no escatológico e no grotesco. É a confirmação de que, por (muitas) vezes, vivemos num mundo cão.

Transeunte (RJ/BR, 2010)
Dir: Eryk Rocha


A trajetória de seu Expedito (Fernando Bezerra), um senhor de idade, sem esposa ou filhos, morando agora sozinho depois da morte recente da mãe de 81 anos, parece ser a história ideal da decadência e desolação que marcam o fim da vida de alguém. Pois o grande mérito de Transeunte é justamente expor o contrário, transformando a rotina desse personagem num caminho de autoaceitação e felicidade prováveis, na medida do possível e a passos lentos.

Não se trata aqui de superação, é muito mais que isso. Expedito vai aprender a conviver com suas limitações de idade, seu ritmo próprio e sua condição solitária. E o grande mérito do filme é respeitar enormemente esse personagem, sem nenhum traço de piedade por sua condição. Na verdade, existe muito carinho por esse senhor errante que passa grande parte do tempo caminhando pelas ruas do Rio de Janeiro.

Expedito anda, ouve as pessoas, observa, sempre como um anônimo na multidão. Começa o filme num estado de melancolia por conta da morte da mãe e vai passando por uma lenta transição de estado de espírito, revelando um olhar mais terno para a vida, apesar das suas limitações. E são muitos os momentos que representam isso. Numa cena, por exemplo, ele vê uma garota enviando uma mensagem de amor por celular; poderia ver aquilo com amargura, mas ri com isso. Ou então os jogos de futebol que deixam de ser conferidos pelo radinho e passam a ser presenciais, com toda a emoção que uma torcida no estádio proporciona. Mas nada é tão bonito e surpreendente como os minutos finais, uma grande redenção para o personagem.

Nesse sentido, é interessante perceber a força de uma fotografia em preto-e-branco sem nenhum traço de tristeza ou mesmo carregada. Pelo contrário, revela uma luminosidade forte, de algo vivo, nunca entristecedora. Em alguns momentos a proximidade da câmera com o ator granula a imagem, mas na maior parte das vezes existe muita luz no filme.

Eryk Rocha, filho de Glauber, estreia aqui no longa ficcional depois de três documentários (Rocha que Voa, Intervalo Clandestino e Pachamama) e filma com planos fechadíssimos, o que só reforça a relação de intimidade e observação que o filme mantém com o protagonista e sua rotina, acompanhando-o aonde ele for, sem interferências.

No entanto, as duas horas de projeção fazem o filme parecer maior do é, até mesmo pela sua atmosfera contemplativa. O ritmo lento, na verdade, faz muito sentido para a história desse homem de rotina arrastada, mas Transeunte seria mais palatável se fosse um pouco mais enxuto, principalmente na sua primeira metade.

Só por não tratar seu protagonista com “peninha” e comiseração, Transeunte já valeria o esforço de um filme que exige um tanto de atenção do espectador. Como exercício fílmico, reforça a técnica a serviço da história que quer contar, essa de demonstração de dignidade que Expedito nos oferece, sem amargor, sem reprovação.

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