Meu Pai

Os becos da memória*

O francês Florian Zeller é mais conhecido como roteirista de teatro. Para os palcos, já escreveu diversas peças que já foram montadas em várias partes do mundo. Ele se lança agora como diretor de cinema na adaptação da sua própria obra homônima, Meu Pai, filmada no Reino Unido em língua inglesa.

O filme foi lançado esta semana em algumas plataformas digitais (Now, Itunes/Apple TV e Google Play), disponível para compra. A partir do dia 28 de abril, ficará disponível também para aluguel nas plataformas citadas acima e na Sky Play e na Vivo Play.

O filme concorre a seis Oscars, incluindo indicação na categoria principal e ainda Melhor Roteiro, além das indicações para os atores Anthony Hopkins e Olivia Colman. Hopkins, aliás, é o centro da trama. Ele vive Anthony, um senhor que é cuidado por sua filha até que recebe a notícia de que ela vai se mudar para Paris para viver com seu novo companheiro. Anthony precisaria então de uma cuidadora ou, pior ainda, se mudar para um asilo.

Mas essa é só a ponta de uma trama que irá revelar muitas reviravoltas – ou muitas facetas de uma mente em desalinho. O grande feito de Meu Pai é colocar o espectador na perspectiva desse homem de idade que tem a memória embaralhada e vivencia uma rotina tranquila e confortável por fora – trata-se de uma família de classe alta, de bens materiais e bom nível financeiro –, mas que internamente experimenta uma confusão mental desestabilizadora.

Isso porque o próprio filme embaralha tramas e personagens, mudando inclusive os atores que assumem determinados papeis. Daí que logo nos primeiros minutos de filme é difícil saber se aquela mulher vivida por Olivia Colman, que chega à casa para falar com o pai, é mesmo sua filha ou se ele a confundiu – sonhou, devaneou – com sua nova cuidadora. Ou estaria ele enlouquecendo?

Este é, portanto, um filme que estabelece para si um dispositivo muito próprio em que a montagem das cenas e a construção narrativa do roteiro pregam peças o tempo todo no espectador e ainda revela o desarranjo mental do protagonista, também ele posto em situação de surpresa e confusão.

Sem pretensões

É realmente louvável o que Meu Pai constrói em termos de narrativa e de ponto de vista. Aí reside a sua originalidade. É bem diferente de obras que lidam com a perda da memória ou doenças como Alzheimer, em filme como Longe Dela, de Sarah Polley, para ficar em um exemplo recente e oscarizável.

Porém, é preciso chamar atenção de que, ao mesmo tempo em que o filme se funda a partir de uma ideia muito boa e inteligente, ele também se torna muito encantado por esta ideia, pelo formato que o filme cria para si, conseguindo explorar muito pouco outros elementos e fundamentos da trama.

O filme inteiro parece girar ao redor desse mesmo dispositivo, reiterativamente, e acaba revelando pouca pretensão ao não expandir o todo da trama. Há, é claro, um retrato curioso (caridoso?) que o filme faz da terceira idade e dos dilemas que envolvem cuidar de uma pessoa com problemas de memória, especialmente se essa pessoa é um familiar querido. Porém, o filme se contenta em criar esse retrato da velhice e, com isso, uma espécie de quebra-cabeças da senilidade que se alimenta em si mesmo.

Nesse sentido, o filme também aposta em certas doses de comiseração porque aquele personagem, a despeito de um passado íntegro e autônomo, escancara agora toda sua fragilidade e dependência. O filme acaba sublinhando isso de modo um tanto escancarado e arrisca cair em um sentimentalismo que busca apenas angariar a compaixão do espectador.

Conjunto da obra

De qualquer forma, apesar dessas fragilidades apontadas acima, há de se fazer jus a uma série de elementos narrativos que são muito bem trabalhados no filme, a começar pelo show de interpretação da dupla Hopkins e Colman. E não é apenas porque eles são ótimos atores – já provaram isso anteriormente –, mas porque aqui eles ganham um texto e personagens que permitem realmente o crescimento dos atores.

Há muitas cenas memoráveis do ator americano, com seu olhar compenetrado, indo do homem sério e meticuloso ao senhorzinho vivaz e brincalhão, passando pelo irônico e pelo desconfiado. As muitas voltas da trama (ou da memória) que o filme nos apresenta permite essa gama de possibilidades que um grande ator sabe aproveitar como ninguém. Não deixa de ser também um desafio, já que o personagem foi vivido antes por atores como Robert Hirsch e Frank Langella – até no Brasil a peça já foi encenada, protagonizada por Fulvio Stefanini.

O texto do filme é de autoria do próprio Zeller, mas ele convidou o roteirista Christopher Hampton para esta adaptação para o cinema. O resultado é uma narrativa bastante fluida em termos de ritmo, o que sempre é importante quando se transpõe uma peça de teatro para as telas.

Apesar do formato circular da trama, há um belo trabalho de composição dos espaços que faz com que o filme não se concentre em apenas algumas locações, apesar da casa da família ser o centro dos acontecimentos. A montagem também ajuda muito a criar tal sentimento de mobilidade que o filme precisa.

Com isso tudo, pode-se dizer que Meu Pai possui um conjunto de obra muito bem arranjado e acabado, cuidadoso nos detalhes e nos quesitos técnicos, o que não necessariamente produz um filme excelente. É sempre bom ver ideias originais nos filmes, mas não se pode ficar meramente encantado por elas, deixando apenas que apontem para o mesmo e já conhecido lugar.

Meu Pai (The Father, Reino Unido/França, 2020)
Direção: Florian Zeller
Roteiro: Florian Zeller e Christopher Hampton

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 11/04/2021)

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