Joias Brutas

Sobre corações brutos e peças raras*

Os irmãos norte-americanos Joshua e Benny Safdie têm construído uma carreira coesa no cinema. Seus filmes se concentram em personagens errantes, sempre perdidos ou perambulando com rumos incertos pelas ruas insones de Nova York. Seu mais novo filme, Joias Brutas, acaba de entrar no catálogo da Netflix, depois de ter estreado na competição do Festival de Telluride, nos Estados Unidos.

Adam Sandler vive o joalheiro judeu Howard Ratner, o típico personagem dos irmãos Safdie: meio trambiqueiro, atrapalhado, também carismático, com problemas até o pescoço e dívidas, muitas dívidas. Howard é dono de uma loja que vende todo tipo de artefato pomposo com diamantes e joias diversas, tanto falsas como verdadeiras, baratas ou de preço exorbitante.

Sandler incorpora também certo retrato do judeu negociante, habilidoso com as transações financeiras, muito seguro e ardiloso. Mas os Safdie estão longe de criar um retrato caricato desse personagem, muito menos uma história banal e clichê. O filme já começa com mineiros na Etiópia encontrando uma opala rara incrustada na rocha, encomendada por Howard – ele que descobriu um clã de judeus esquecidos no país africano e com eles fez contato.

Quando a pedra, ainda bruta, chega às mãos de Howard, ele está envolto em uma série de negócios e acordos escusos com muita gente, desde agiotas a outros joalheiros do bairro. As coisas vão se complicar ainda mais quando ele propõe a um famoso jogador de basquete (vivido pelo ex-atleta do Boston Celtics, hoje aposentado, Kevin Garnett) uma espécie de permuta – o jogador fica com a jóia durante os últimos jogos do campeonato, que parece lhe conferir sorte nos jogos, em troca de uma aposta milionária feita por Howard.

A trama parece meio estapafúrdia, mas Howard, na sua gana pela vitória, através das altas apostas e no ímpeto de perder ou ganhar grandes somas de dinheiro – é menos pelo dinheiro em si e mais pela aventura do risco –, vai sendo levado a uma trama labiríntica que cresce como uma bola de neve, sempre mais perigosa.

Reposicionamento

Astro de filmes de comédia como O Paizão (1999) e Click (2006), Adam Sandler pode soar irreconhecível aqui. Não só porque encarna um papel em um tipo de filme que ele não está acostumado a fazer, mas também porque apresenta um talento que poucas vezes conseguiu mostrar em tela. A sua figura associada à comédia talvez não tenha permitido que ele exercitasse seu talento como o faz aqui.

É como se o ator se reposicionasse na carreira e passasse a investir em papéis mais “sérios”, estratégia que muitos comediantes começam a adotar depois que seu apogeu na comédia se esvai. No fundo, esse tipo de risco já vinha sendo tomado por ele desde antes, ao fazer um filme como Embriagado de Amor (2002), de Paul Thomas Anderson, ou mesmo o mais recente Os Meyerowitz – Família Não se Escolhe (2017), de Noah Baumbach (este último também disponível na Netflix).

Sandler encontra em Howard um personagem riquíssimo em nuances e sua figura de bom moço ajuda a compor esse homem de meia idade rodeado de problemas e encrencas, mas ainda assim carismático, adorável em suas fragilidades e falhas de caráter. No fundo, a metáfora do filme é bem simples: o próprio Howard encarna essa peça bruta, de bom coração, que só precisaria ser melhor lapidada.

Efeito eletrizante

Para quem está pouco familiarizado com o cinema dos irmãos Safdie, esperem um filme vibrante. O longa coloca o espectador nessa montanha russa que é a rotina conturbada do personagem e assume um tom eletrizante que tem poucos momentos de descanso e respiro. O uso de trilha sonora tecno ajuda bastante a compor essa atmosfera.

Enquanto tenta fazer dinheiro com suas negociações suspeitas, Howard também precisa lidar com um casamento em ruínas (e dentro de uma família judaica tradicional), com a relação pouco próxima com os dois filhos adolescentes e ainda possui um caso inconstante com a jovem Julia (Julia Fox), sua funcionária na joalheria, aparentemente uma ex-prostituta que agora vive sob seus cuidados.

Com tudo isso pesando sobre o personagem, os irmãos Safdie fazem um filme em grande medida gritado, agitado, filmado com a inconstância da câmera na mão, e as interações de Howard se misturam numa confusão de vozes e tentativas de negociação; o que está em jogo, sempre, é a melhor saída, a melhor e mais lucrativa aposta.

Trata-se de um tom semelhante ao que eles fizeram em seu último filme, o ótimo Bom Comportamento (2017), com Robert Pattinson, embora existisse ali um senso de perigo mortal constante que rondava os personagens – algo que só se acentua aqui na meia hora final do filme.

Mas é com Daddy Longlegs (filme de 2009 que não foi lançado no Brasil, mas cujo título pode ser traduzido como “Pai Pernalonga”) que Joias Brutas guarda maiores semelhanças. Ali, um pai atrapalhadíssimo e sem grana tinha que passar um fim de semana com os dois filhos pequenos que moravam com a mãe; eles se divertiam muito, mas também passavam por perrengues, no limite entre o carisma e o risco. Howard é como esse pai que não sabe bem como fazer as coisas, troca os pés pelas mãos, mas segue incansável na sua tentativa de vencer e lucrar.

A diferença agora em relação a todos os filmes anteriores dos irmãos é que em Joias Brutas o cenário de decadência financeira dos personagens, sempre apertados e na busca por descolar uma graninha, lícita ou ilicitamente, é trocado pelo universo de uma família judaica de classe média alta. Ainda que os anseios de Howard continuem sendo descolar mais grana, ele lida aqui com pretensões financeiras mais robustas.

Os Safdies têm se especializado nesses personagens falhos, mas nem por isso desprezíveis. Não há julgamentos morais sobre eles. Poucos cineastas hoje conseguem injetar tanta energia num filme e ainda construir um retrato singelo, mordaz e realista sobre pessoas tão facilmente condenáveis, de carne e osso. Joias Brutas é um exemplo máximo de como isso é executado com maestria e vigor narrativo.

Joias Brutas (Uncut Gems, EUA, 2019)
Direção: Josh Safdie e Benny Safdie
Roteiro: Ronald Bronstein, Josh Safdie e Benny Safdie

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 02/02/2020)

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