Anna / Entrevista com Heitor Dhalia

Gênio criador e destruidor*

“Os diretores querem atuar junto, daí a gente contracena com eles. Mas sabendo que na hora [do espetáculo] eles não estarão lá”. Essa é uma fala que o ator escolhido para viver Hamlet diz para Anna (Bela Leindecker), jovem atriz que batalha para interpretar Ofélia na famosa peça de William Shakespeare. O espetáculo está sendo montado e rigidamente pensado pelo renomado diretor de teatro Arthur (Boy Olmi).

Na busca pelo elenco ideal que seja capaz de sustentar a peça do bardo – ou, antes, de dar vazão às suas próprias obsessões –, o diretor da peça de teatro dentro do filme pretende ir às últimas consequências. Pois é um jogo de encenações e disputas de desejos (pessoais e criativos) o que veremos no decorrer de Anna, novo filme de Heitor Dhalia, estreia dessa semana nos cinemas.

“O filme surgiu de conversas minhas com a Nara Said, minha roteirista e colaboradora. Ela é atriz, já participou de companhias de teatro e a gente tinha curiosidade sobre esses processos criativos imersivos de grupos que são muito fechados, em que você tem um método, um grande diretor e um elenco muito jovem”, pontua o diretor Heitor Dhalia, que conversou com ATARDE sobre o filme.

“Daí se entra num processo de criação que acaba sendo muito louco, às vezes abusivo, às vezes genial, às vezes contraditório, tudo ao mesmo tempo”, complementa o cineasta. Esse é justamente o espírito do filme. A jovem atriz acredita que pode ganhar o papel, cobiçado por outras colegas, mas vai ter de conquistar a confiança do diretor que, além da obsessão pela perfeição, tem os seus próprios demônios pessoais – como o fato de anos atrás ter tentado encenar a peça, mas sem sucesso.

“A gente fez esse jogo cinema-teatro de forma muito intensa”, afirma Dhalia que tentou reproduzir, de fato, uma companhia de teatro, reunindo atores de vários grupos de São Paulo e realizando um verdadeiro exercício de preparação para um espetáculo teatral. “Tentamos trazer elementos do sagrado que o teatro aborda, o palco como lugar de pulsão do humano e a celebração disso”, observa o cineasta.

O grupo se mostra realmente muito coeso, e Bela Leindecker reforça muito bem uma personalidade jovem, ainda com muito a aprender, mas querendo se desafiar, apesar das inseguranças; enquanto isso, Boy Olmi, ator argentino veterano, pouco conhecido das telas brasileiras, assume o posto desse rígido e genial diretor, complexo nos seus desejos criativos, mas também destrutivos.

Ser e não ser

O filme praticamente se estabelece no embate entre Arthur e Anna enquanto há uma espécie de disputa interna entre os atores da fictícia companhia de teatro para saber quem vai conquistar qual papel da peça. Nada está definido. Os jogos de desejo, dominação e controle se misturam entre os dois personagens, o que reforça não só a relação diretor-atriz, mas também a de homem-mulher. “Interessamo-nos por discutir esse limite entre o desejo criativo e a ética. Onde está o limite? Até onde você pode chegar para conseguir um resultado de excelência?”.

Hamlet, constantemente, é visto como um espetáculo de inflexão para muitos atores e diretores. Fazer uma montagem digna da peça e, principalmente, dar vida ao papel principal é o sonho de muitos profissionais do teatro.

Mas no caso de Anna, a personagem feminina Ofélia, uma coadjuvante no texto original, ganha centralidade no filme a partir da obsessão que Arthur tem por ela – e consequentemente pelas atrizes que a interpretam. Ele, aliás, vai convidar a atriz com quem anteriormente ele tentou levar a cabo a empreitada para estar perto da nova montagem.

Arthur pode ser visto, portanto, como um personagem complexo porque não é o caso de ser pintado apenas como vilão, como o diretor intransigente que maltrata os atores até conseguir extrair dele a essência dos personagens – muito embora seja justamente isso que ele faz às vezes. Mas há um desejo genuíno de fazer o teatro clássico com substância e à altura do pensamento shakespeariano, embora o experiente diretor vá perder a cabeça muitas vezes por conta disso – fronteira entre a sanidade e a loucura que também é tema de Hamlet.

Ofélia vive

O confronto que se dá entre Anna e Arthur preenche o longa e por vezes o roteiro parece dar voltas ao redor da mesma questão de modo muito insistente – Arthur reclama que os atores não estão atuando, mas nunca sabemos o quê de fato ele quer deles, qual resultado ele busca alcançar.

Mas até o final, o filme irá revelar seus verdadeiros intuitos e anseios. Anna se constitui como uma grande revisão do mito de Ofélia, essa personagem que sofre nas mãos dos homens – Hamlet finge loucura para desmascarar o tio que assassinou seu pai, enquanto ela sucumbe de verdade na insanidade e acaba morta ao final da história.

“O Hamlet coloca a mulher nesse lugar. Só que estamos vivendo outro momento, e as mulheres estão com outras lutas e questões. Então, como revisitar essa personagem clássica à luz do nosso tempo? Essa foi uma das nossas reflexões”, revela Dhalia. Na medida em que o filme decorre, tal sentimento de insurgência e de não subjugação está lá, mas ele só ganha mesmo força de ruptura mais adiante.

“A gente quis discutir esse grito na garganta, fazendo um debate honesto sobre os processos de criação, uma discussão intensa com as atrizes, com a roteirista e todo o elenco. E mais ainda, quisemos discutir o que é o ser humano com sua glória, suas falhas, sua monstruosidade e sua grandiosidade também”, complementa o cineasta.

O filme de Dhalia lança luz, portanto, sobre o lugar do poder criador e a necessidade de desconstrução dos grandes mitos – masculinos, em sua maioria –, com seus desejos de grandeza e dominação. No final das contas, Ofélia deve viver e não mais sucumbir à loucura dos homens.

Anna (Brasil, 2019)
Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Heitor Dhalia e Nara Mendes

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 04/07/2021)

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