Alvorada

Por dentro das barricadas*

As diretoras Anna Muylaert (de Que Horas Ela Volta?) e Lô Politi (de Jonas) tiveram acesso exclusivo ao Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência da República, no período em que Dilma Rousseff enfrentava o julgamento que a destituiria do cargo em meados de 2016. Alvorada é o resultado desse registro, um filme que coloca o espectador em um lugar privilegiado de testemunha histórica a partir da intimidade do poder.

Quando ela é afastada do cargo em maio daquele ano, Rousseff fica aguardando o veredito final pelo Senado na sua residência oficial, buscando mobilizar algumas frentes e preparando a sua defesa. Com equipe reduzida, as diretoras acompanham momentos como esse, as muitas reuniões e encontros da então presidenta com lideranças políticas e sociais, passando também por conversas prosaicas e incidentais.

O filme estreou este ano na competição do festival É Tudo Verdade e chega agora às plataformas digitais (Now, Oi, Vivo Play, Google Filmes, iTunes e Youtube). Mesmo lançado cinco anos após a deposição de Rousseff (processo hoje cada vez mais compreendido como mera manobra política contra a presidenta e o governo do PT), o filme chega agora ao público em outro momento de elucidação política quando da anulação das condenações do ex-presidente Lula pelo Supremo Tribunal Federal.

Alvorada acaba fazendo parte de um grupo de produções recentes que também se dedicaram a filmar o impeachment, mas com abordagens diferentes: O Processo, de Maria Augusta Ramos; Democracia em Vertigem, de Petra Costa; e Excelentíssimos, de Douglas Duarte, são exemplos mais vigorosos.

De todos esses, Alvorada parece ter uma relação de parentesco narrativo com o filme de Ramos, uma vez que O Processo ancora-se no cinema direto e de viés observacional. Alvorada também trabalha nessa chave narrativa, quase como que vigiando e registrando o cotidiano do lugar, algumas reuniões e discussões político-administrativas, sem interferir muito no espaço e sem grandes interações.

No entanto, o filme da dupla de diretoras não deixa de marcar sua posição e sua presença mesmo que sutilmente através de falas das diretoras por trás das câmeras. Elas conversam ou comentam algo com a presidenta, tecem comentários rápidos com ela em momentos pontuais. Ainda assim, fica latente o desejo de se aproximar daquela realidade da forma mais transparente e impessoal possível.

Desconforto

O filme age, portanto, como um infiltrado nos corredores do poder (a “mosca na parede”) que mira não só os passos e as conversas de Rousseff, mas também os muitos funcionários e demais figuras políticas que convivem no local, sejam os assessores e chefes de gabinete, sejam os secretários pessoais, funcionários de limpeza, cozinha e segurança.

É notório, no entanto, dentro e fora do filme, que as coisas não saíram como o esperado. A então presidenta parece não ter aderido ao projeto do filme que se queria fazer, um que deseje criar mais proximidade e cumplicidade entre a equipe e ela. Parece haver um anseio por uma intimidade que não se concretiza, ou que àquele momento não era possível constituir.

Em determinada cena, Rousseff passa junto à equipe e uma das diretoras pergunta a ela o que está achando da câmera, quando a presidenta, sem interromper o passo, responde que está achando muito invasiva. Em outro momento, durante uma reunião importante, ela olha para a câmera e pede para interromperem a filmagem a partir daquele ponto, dada confidencialidade da discussão.

Isso faz de Alvorada um corpo estranho porque além de não conseguir o que almeja – e o filme permanece nessa tentativa até perto do fim –, ele também acaba soando desconjuntado formalmente, seja na montagem desordenada, pouco fluida, seja na fotografia/operação de câmera inconstante e em certa medida atrapalhada, sobrando até mesmo para a falha captação sonora.

Talvez falte ao filme assumir a tensão que se instaurou ali, a inconstância das circunstâncias diante da aparente normalidade do funcionamento do ambiente palaciano; assumir de modo mais conflituoso até mesmo o incômodo da câmera e de uma equipe de filmagem em momento tão delicado. Mas certamente não era esse o filme que se queria fazer ou que se esperava extrair dali.

Dama de ferro

Ainda assim, o mérito do longa, em comparação com os seus pares, é que Alvorada consegue oferecer com mais objetividade um espaço íntimo e de funcionamento interno daquele ambiente que é ao mesmo tempo morada e local de trabalho e articulação política.

São ótimos os momentos em que Rousseff fala de suas experiências passadas, conta detalhes pessoais e familiares ou quando discute temas ligados à realidade e ao passado do Brasil, contrastando bastante com a figura política que se expressava de forma muito engessada (por vezes atrapalhada) nos seus discursos públicos.

A estrutura imponente da arquitetura do lugar, a grandiosidade dos espaços, os longos corredores e as muitas salas e compartimentos do Palácio da Alvorada, tudo isso denota certa frieza e distanciamento que só são quebrados por esse fator humano que emana do filme – não apenas de Rousseff, mas de todos que trabalham e comungam de um companheirismo para com a presidenta.

O que fica disso tudo, e algo que já se sabia desde o enfrentamento dela na sabatina no Senado, é a força de resistência e firmeza da estadista Dilma Rousseff, sua determinação em seguir até o fim os passos de enfrentamento das adversidades políticas. Em tempos de CPI da Covid em que os atuais representantes políticos negam-se a falar ou temem confrontos, ver as imagens de Alvorada só reforçam a tenacidade dos verdadeiros líderes.

Alvorada (Brasil, 2021)
Direção: Anna Muylaert e Lô Politi

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 30/05/2021)

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