Alegria na Bahia

A impressão geral, da qual não somente eu compartilho, é de que essa provavelmente tenha sido uma das edições mais fracas da Mostra Cinema Conquista, tanto no que diz respeito à programação, quanto da adesão do próprio público, que compareceu pouco ao Centro de Cultura nesses cinco dias de evento. E a noite de encerramento só reforçou esse clima médio diante os filmes apresentados.

Carreto (BA/BR, 2009)
Dir: Cláudio Marques e Marília Hughes

Carreto pode ganhar pela singeleza com que promove o encontro entre duas crianças de classe baixa em algum lugar pobre de Salvador (ou de suas redondezas), mas parece não arriscar mais do que apresentar a história inocente sobre a relação de amizade que se inicia entre o garoto que trabalha como carregador e a menina com problemas de locomoção por deficiência nas pernas. Soma-se a isso o valor “social” que acrescenta ao filme. Carreto é bem filmado, conta com uma montagem bem boa, mas não passa do bonitinho, com um final que se quer agradável, apaziguador (dentro da ideia de fazer o espectador sair do filme mais feliz), mas que pode ser lido como mera conciliação passageira.

Áurea (RJ/BR, 2010)
Dir: Zeca Ferreira

Misturar documentário e ficção virou modinha. Não só no cinema mundial, mas especial no cinema brasileiro, cada vez mais encantado com os artifícios que podem sair dessa proposta, muito embora a ideia já começa a se tornar cansativa. Áurea é um desses exemplos, mas conta com uma ternura tão grande por sua figura central (que intitula o filme) e o prazer e vivacidade com que conduz seu ofício, o suficiente para elevar o filme. Ela é uma senhora que canta em bares pela noite e demonstra uma emoção latente quando o faz. O filme apresenta um pequeno retrato desse ofício, às vezes com depoimentos dela e de outras cantoras diretamente para câmera, ou através de encenações em que a própria Áurea interpreta a si mesmo em situações corriqueiras no seu trabalho. A cena final, ao som de Elizeth Cardoso, é carinhosíssima.

Filhos De João, Admirável Mundo Novo Baiano (BA/BR, 2009)
Dir: Henrique Dantas


Confesso que o maior valor desse documentário, para mim, foi o de conhecer melhor os Novos Baianos, grupo musical pós-Tropicalismo que contribuiu para a música brasileira através de uma nova sonoridade. É o tipo de projeto que faz o espectador sentir prazer em conhecer o grupo, numa espécie de babação de ovo do bem, uma parcialidade em prol do reconhecimento do grupo, tipo de coisa bastante comum no documentário brasileiro atual (principalmente o musical).

Mas essa escolha, se pode incomodar levemente no início, nos ganha com muito pouco, pois basta ver na tela a comprovação de toda essa reverência, que a desconfiança se transforma em admiração incondicional, além do belo resgate de imagens que sempre fazem bem ao nosso patrimônio cultural.

E talvez aí resida um contraponto nessa onda de documentários. Se o conteúdo é bom, se aquilo sobre o qual se quer deter já possui valor de interesse, o documentário, enquanto artifício de linguagem cinematográfica, não precisa ser rebuscado, ou os responsáveis não se preocupam em criar algo novo ou pelo menos diferente (coisa que tem sido explorada muito bem nos nossos documentários). Ou seja, a estrutura narrativa do filme é supersimples, o que nunca é um demérito, mas faz com que a obra nunca saia do termo “médio”.

A partir daí, o documentário traça um percurso linear da formação do grupo, desde o encontro entre Moraes Moreira e Luiz Galvão (o grande cerne do grupo), passando pelo apadrinhamento de João Gilberto (não à-toa o título do documentário começa com “filhos de João”), até a apresentação da sonoridade leve e refrescante do grupo, com suas letras despretensiosas, além de expor a convivência e relação de amizade dos integrantes, quase como em uma comunidade hippie.

Se a ausência de Baby do Brasil se faz sentir entre os entrevistados, a presença de Tom Zé e sua oratória poética-metafórica geram boas gargalhadas, para além de suas reflexões sobre a importância e influência daquela banda de jovens baianos fazendo algo de novo, algo de revolucionário, algo admirável.

2 thoughts on “Alegria na Bahia

  1. De fato, Vinícius, é um retrato de uma ápoca ao mesmo tempo em que é o retrato de um grupo musical tão jovem e que deu uma grande contribuição à música popular brasileira. E acho que nos mais jovens o fascínio acaba se tornando maior porque (e falo no meu caso) é como se estívessemos conhecendo o grupo agora.

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