51º Festival de Brasília: Torre das Donzelas

Primeiro longa da mostra competitiva do Festival de Brasília, Torre das Donzelas, de Susanna Lira, soma-se a tantos outros filmes que abordam o tema da ditadura a partir de depoimentos de antigos militantes que foram presos e torturados na época. A diferença aqui é que a diretora foca sua atenção na ala feminina desse presídio e reúne um grupo de mulheres que estiveram presas juntamente com a ex-presidenta Dilma Rousseff, também depoente no longa.

Existe um primeiro incômodo no que se refere a um lugar-comum nos filmes que abordam esse tema: a exploração de uma dor, a necessidade quase cruel de fazer reviver uma memória dura e dolorosa, a partir de uma dimensão de atrocidade que é inerente àquela situação. Não que isso não seja importante, mas é mesmo pela saturação do recurso.

É uma sensação conflitante essa se pensarmos que a memória sobre a Ditadura no Brasil anda tão relegada a segundo, terceiro plano, vide os movimentos e grupos que botaram a cara no sol para pedir o retorno do regime militar, defendendo práticas de repressão como forma de “consertar” o país. Mas sabemos que o filme de Lira não é destinado para essas pessoas, não é ele que vai fazer alguém mudar de ideia. Nem é o público do Cine Brasília que vibrou, aplaudiu em cena aberta, especialmente as ótimas falas de Dilma, que precisaria ver esse filme para repensar algumas coisas. Por outro lado, nunca se precisou tanto falar sobre o regime militar, nunca se precisou tanto reacender a luz da História (essa que ainda é tão mal contada) para que não a percamos de vista.

A citada torre fazia parte do Presídio Tiradentes, situado em São Paulo, e possuía um conjunto de celas para as mulheres presas. Para além da novidade de reunir somente mulheres e falar a partir da perspectiva de gênero, Torre das Donzelas utiliza ainda um recurso de psicodrama a fim de fazer com que as entrevistadas acessem uma memória muito particular: elas são desafiadas a desenhar num quadro a estrutura do local, da forma como lembram, para que o espaço seja reconstituído em estúdio, e ali elas se reúnem para contar suas histórias – menos Dilma, que só é entrevistada em separado.

Certamente tal estratégia inserida no entrelaçamento narrativo funciona como gatilho de rememoração, mas ainda assim soa como um joguete de encenação muito teatral e um tanto já desgastado no formato, saída que muitos diretores encontram para não ter de se amparar somente nas falas e depoimentos. Apesar disso, o filme ganha camadas interessantes, como uma noção de convivência que é muito forte, reverberando uma experiência coletiva de ter passar por aquilo juntas, na tristeza e nos pequenos momentos de alegria (algumas histórias são engraçadas, como a da sopa de quiabo).

Nesse sentido, o filme aproxima-se muito do curta-metragem baiano Galeria F, Quando a Chuva Passa, de Henrique Dantas. Ali, o mesmo dispositivo narrativo e um fio temático que permitia a percepção de uma irmandade: o momento em que determinados presos da Ditadura na Bahia eram transferidos para um presídio e ali eles ficavam “a salvo”, mesmo que por um tempo, da tortura; havia então um sentimento de certo alívio, momento em que eles aproveitavam para relaxar, montando um campeonato de futebol entre eles, por exemplo. No caso de Torre das Donzelas há um tom que trafega muito por esse sentimento de coletividade a partir mesmo da união dessas mulheres em situação de extrema vulnerabilidade.

Formalmente, de modo geral, o filme tem seus problemas. Em troca de certa fluidez narrativa, a montagem carece de certa sutileza já que muitas vezes interrompe os depoimentos e certa continuidade de fala. E há alguma coisa de redundante nas imagens que repetem algumas falas como mera ilustração do que está sendo dito. E mesmo que alguns depoimentos sejam previsíveis, a partir de um repertório de filmes e narrativas sobre o tema, vale destacar que os depoimentos de Dilma são os melhores de todo o filme. Não só pela força e resistência que ela demonstra, mas pela perspicácia e entendimento que hoje ela possui da situação. Torre das Donzelas, ao mesmo tempo que nos dá um gosto de algo já visto antes, também consegue ser singular ao seu modo.

Torre das Donzelas (Brasil, 2018)
Direção: Susanna Lira
Roteiro: Susanna Lira, Rodrigo Hinrichsen, Muriel Alves e Michel Carvalho

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