Roma

No bairro Colonia Roma, na Cidade do México, Alfonso Cuarón viveu com sua família de classe média alta. Uma figura feminina fazia diferença naquela rotina: a empregada doméstica que cuidava da casa e das crianças, incondicionalmente, habitando o quartinho dos fundos e vivendo à sombra dos patrões – condição muito comum a essas trabalhadoras, como também acontecia costumeiramente no Brasil há até bem pouco tempo. Se Roma é o filme mais autobiográfico do diretor mexicano, seu Amarcord (apesar do tom naturalista e cuidadosamente reconstituidor de uma época e de um local específicos), Cuarón deu preferência a revisar tal momento da vida lançando um olhar para as serviçais que sempre lhe rodearam.

Cleo (Yalitza Aparicio) é quem dá vida a essa figura geralmente secundária nesse tipo de conto mui particular, mas que ganha protagonismo no passeio memorial que o diretor empreende com seu habitual virtuosismo técnico. No México dos anos 1970, os pais da família enfrentam uma crise no casamento e o marido passa longos períodos fora de casa; enquanto isso, a mãe tenta cuidar do lar, em vias de desintegração, e dos quatro filhos pequenos, todos eles muito apegados a Cleo. Há também Adela (Nancy García), uma segunda empregada, que principalmente cozinha, cúmplice de Cleo na mesma lida diária com os afazeres da casa e o trato com as crianças.

Se nos filmes anteriores do diretor havia um senso de urgência e perigo latentes (Gravidade, Filhos da Esperança e mesmo Harry Potter e o Prisioneiro de Azkabam), em Roma o tom é outro. Cuarón observa com parcimônia e cuidado a rotina de tais personagens sob um olhar afetuoso, e não necessariamente condescendente. Ser uma empregada doméstica no México no início dos anos 1970 não é das vidas mais desejadas. No entanto, ainda que a rotina de Cleo seja marcada pelo trabalho incansável, há lampejos de felicidade que o diretor não se furta em retratar. Por outro lado, são suas aventuras amorosas que rendem também a ela alguns problemas, como as consequências indesejadas dos encontros fortuitos com Fermín (Jorge Antonio Guerrero), um interesse amoroso.

É nesse corda bamba que Cuarón constrói a trajetória de Cleo, em vista de sua condição de doméstica. Ela é a última a se deitar e a primeira a acordar, vive em função do bem estar da família; mas o filme cuida para indicar também os anseios pessoais da personagem, com os passeios pela cidade em companhia de Adela ou de Fermín ou os pequenos detalhes de sua intimidade (os exercícios físicos e brincadeiras que as duas fazem no quarto antes de dormir, os encontros com conhecidas/familiares que trabalham como empregadas em outras casas). São minimalismos muito sutis, mas que falam do cuidado de Cuarón em deter a vista sob essa figura de sua infância que sempre esteve ali, mas pouco notada. No fundo existe em Roma um quase excesso de sutilezas àquilo que está ao redor de Cleo (seja no âmbito familiar, via conflito matrimonial do qual nunca sabemos as causas; seja socialmente a partir dos conflitos urbanos na Cidade do México que também não são contextualizados). Mas é justamente o que diz respeito diretamente a Cleo que ganha maiores contornos durante o filme. O microcosmo dessa personagem interessa mais a Cuarón.

Nesse sentido, o olhar do filme passa a considerar a subjetividade de Cleo na medida do possível (afinal de contas, quem narra essa história ainda é o patrão-cineasta, mesmo que no anseio de prestar reverência) e é nos pequenos detalhes que isso se insinua. Quando a família vai passar o Ano Novo no interior, há uma cena em que todos passeiam por um descampado; a panorâmica que o diretor utiliza (e ele vai abusar desse movimento de câmera ao longo do filme) consegue captar praticamente todos os personagens ao fundo, divertindo-se, mas logo se detém em Cleo, em primeiro plano; na conversa com a outra empregada, ela relembra seu povoado natal, compara os ruídos e cheiros que se insinuam ali e identifica que aquele ambiente é mais seco. Cleo se lembra de onde veio. Cuarón também.

O uso das panorâmicas, por vezes, atordoa o olhar, mas elas revelam também um processo de busca, funcionam como uma espécie de radar à espreita de captar os movimentos de Cleo, seus olhares e gestos. É como se a câmera de Roma escapasse a todo instante – escapa dos patrões para a empregada, da casa grande para os aposentos dos fundos, escapa para a intimidade da jovem e encontra facilmente seus dilemas pessoais, dores e dúvidas, especialmente a partir do incidente junto a Fermín. Esses dois núcleos confundem-se, como se confundem na vida real o trabalho doméstico e a vida familiar. Se Cleo encontra na patroa, a Sra. Sofía (Marina de Tavira), uma confidente (ambas sofrendo pelo abandono por parte de homens frágeis), o diretor apenas afirma a solidariedade entre as mulheres e saúda a força feminina que permanece e sustenta a família (não necessariamente a sua própria, no caso de Cleo), apesar da distância – social, econômica e política – que separa as duas mulheres.

E é aí que talvez Roma cometa um deslize ao ultrapassar a linha do melodrama, algo que fica muito claro numa cena chave do filme: a sequência da praia. Não entrarei em detalhes para não estragar a surpresa da cena, mas o diretor usa certa catarse para criar uma situação de comoção misturada a uma declaração complicada (que soa mais como algo que Cuarón gostaria de dizer a Libo, sua verdadeira ama, a quem o filme é dedicado) e que faz o filme se entregar sem rodeios a um paternalismo sem nuances. Além disso, o diretor usa o apuro estético para “embelezar” certa dor, e tudo isso excede um tanto a sutileza com que ele vinha trabalhando até então.

Mas isso não desmerece o filme, de modo algum. É só um limite que o diretor não consegue não ultrapassar. Roma segue como um belo exercício de rememoração e generosidade. A fotografia em preto-e-branco não só reforça o memorialismo de uma época que diz muito ao cineasta, como também tinge de tons agridoces a rotina dura, mas acolhedora que Cleo encontra naquele núcleo familiar, apesar de não ser o seu. Mas qual seria esse?

Em uma cena logo no início, ela está lavando roupa, mas entra na brincadeira do garoto mais novo: interrompe o trabalho e deita-se em cima de um tanque para fingir-se de morta (não trabalhar, para ela, talvez signifique justo isso, a morte, a negação de si). Porém, parar o ofício e simplesmente nada fazer, gozar o ócio, é como um sonho distante que ela nutre no âmago, mas não pode persistir nele porque a vida real bate à porta e as crianças querem uma vitamina.

Roma (México/EUA, 2018)
Direção: Alfonso Cuarón
Roteiro: Alfonso Cuarón

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