Olhar de Cinema: Família da Madrugada

Trunfo do registro documental de observação, Família da Madrugada é um pequeno achado, jornada noite adentro na companhia de membros de uma família que pilotam uma ambulância privada na Cidade do México socorrendo, pela madrugada, pessoas acidentadas.

O diretor norte-americano Luke Lorentzen tem a felicidade de coletar material riquíssimo que é ao mesmo tempo retrato de certo intimismo nas relações interpessoais e também denúncia da precarização do trabalho. O cineasta acompanhou a rotina de trabalho da família Ochoa (pai e dois filhos, um deles ainda uma criança que, vez ou outra, acompanha as corridas dos mais velhos, como extensão de uma brincadeira, para que não fique sozinho em casa) e demais pessoas. Trata-se de uma reunião essencialmente masculina, uma vez que a mãe é uma figura ausente (não está presente na vida deles ou não quis aparecer no filme, não sabemos) e somente em um momento, em casa, aparece a filha/irmã em rápida cena.

Lorentzen tem o cuidado de preservar a imagem das vítimas, nunca caindo na cilada do sensacionalismo via tragédia – o filme testemunha algumas situações de choque, físicas e emocionais, e uma delas envolvendo um bebê é especialmente angustiante. O senso de urgência convive com os momentos de ócio que, por sua vez, seguem na iminência de serem abalados ao menor sinal de acidente nas ruas.

Curioso como nesta edição do festival, filmes abordando a dimensão do trabalho foram, de alguma forma, pautados em mostras distintas. Estou me Guardando para Quando o Carnaval Chegar, do brasileiro Marcelo Gomes, talvez seja o que melhor conversa com a proposta de discutir, via observação documental (não tão invisível assim), as maneiras como o trabalho no mundo moderno de relações neoliberais têm modificado a rotina e o pensamento das pessoas acerca da ideia de fazer e lidar com o dinheiro.

No caso de Família da Madrugada, o retrato dessas pessoas que precisam se virar para garantir o sustento através de um trabalho incerto esbarra numa série de contratempos: eles arriscam atender as pessoas e não serem pagas por isso, uma vez que se trata de um serviço particular, na sua grande maioria atendendo acidentes casuais, e não sendo chamados de antemão – letreiro inicial do filme dá conta de que na Cidade do México existem menos de 50 ambulâncias públicas para atender uma população de quase nove milhões de pessoas. Eles concorrem com as demais ambulâncias – privadas ou não –, disputando os clientes, o que coloca em equilíbrio o propósito de salvar vidas versus a necessidade de ganhar dinheiro. As irregularidades legais, os entraves com a polícia (em alguma medida corrupta), tudo é motivo de preocupação cotidiana.

Lorentzen não é taxativo sobre nada, não força nenhuma dessas questões. Como aplicado representante do cinema direto, ele se reversa a mostrá-las, o que já é, por si só, colocar em evidência certas engrenagens e situações que dizem muito sobre como aquela família escolhe trabalhar e sobre como as particularidades daquele trabalho agem e modificam a rotina e as relações dentro daquela família. A madrugada é apenas testemunha. Os tensionamentos se inscrevem com naturalidade e precisão narrativa, sem excessos – fruto de edição e decupagem precisas –, e o resultado final é um filme a todo instante atraente e atraído pelos caminhos incertos pelos quais a família Ochoa se move.

Família da Madrugada (Midnight Family, EUA/México, 2019)
Direção: Luke Lorentzen
Roteiro: Luke Lorentzen

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