Mostra SP: Dias

Para quem ameaçou se aposentar do cinema nos últimos anos, mas continuou fazendo filmes (uma maior parte de curtas-metragens e longas documentais), Tsai Ming-liang bem que poderia ter feito de seu novo filme um dos mais radicais de sua carreira. Dias até que pode dar essa impressão pela maneira como estende ao máximo uma trama que pode ser explicitada em poucas linhas de história. Porém, o filme logo faz notar que a diferença está mesmo no tom empregado porque o cinema de vigor emocional internalizado do qual ele se tornou mestre está todinho presente aqui, bem como o rigor formal e estilístico que faz da obra do cineasta malaio/taiwanês uma das mais coesas e festejadas do cinema contemporâneo.

Há de se pensar também que a ideia de radicalidade no cinema de Tsai é muito atribuída a um fluxo vagaroso, aos planos longuíssimos e poucos diálogos que parecem se esforçar para espremer o que há de angústia, resiliência e toda sorte de sensações de seus personagens. Mas, no fundo, isso é apenas uma maneira pouco convencional, mas nada misteriosa, de se contar uma história e extrair dali uma potência emocional que vibra na tela. No caso de Dias, apenas dois atores, poucos cenários – grande parte do filme se passa em suas respectivas casas, um quarto de hotel, algumas cenas externas – e os diálogos que o filme sequer faz questão de serem traduzidos e legendados. O cinema de Tsai reduzido ao que mais de significativo ele pode render.

O mote da solidão parece permear a vida dos dois personagens, apesar das distinções de classe. Kang (Lee Kang-sheng) é um homem de posses, mais endinheirado, vive numa grande e bela casa; por sua vez, Non (Anong Houngheuangsy), mais jovem, mora num lugar muito simples, sem muitos móveis e utensílios (chega a improvisar um fogareiro para preparar comida no chão da sala) e logo saberemos que trabalha como michê. O encontro entre as duas almas vagantes parece inevitável, mas nunca esquemática ou anunciada. Quando isso se dá, parece um mero acaso uma vez que tudo no filme segue um ritmo muito próprio, vagaroso, e os atos dos personagens, até certo ponto (até a terça parte final do filme, para ser mais exato), são desprovidas de peso e maiores significações para além da constatação de que tipo de sujeitos eles são em que estado de espírito eles se encontram.

Pois se a ideia da solidão, impressa na rotina banal dos personagens que o filme nos confidencia, passa por um sentido de quase notificação – o filme apenas nos informa que aqueles homens estão sozinhos, tristes e em busca de uma completude, cada qual a seu modo, sem a preocupação de explicar por que e como chegaram até ali –, o filme crava sua opção em não explorar isso dramaticamente, apenas as consequências sentidas no presente da trama. Tsai não demonstra pena ou nenhum tipo de compaixão pesarosa por eles, o que não impede o filme de se importar e ser carinhoso com aqueles homens. É nesse equilíbrio de representação emotiva e embalo das vidas vazias que o filme propicia a eles um gesto maior de afago.

E tal gesto surge através de algo tão banal como uma caixinha de música, deflagradora de uma conexão que se estende um pouco mais entre eles, mas também a partir da presença e de um contato maior que não seja apenas aquele mediado por força dos serviços prestados pelo garoto, aparentemente muito bem pago por Kang. A caixinha de música, objeto de cena tão explorado e presente em tantos filmes por aí, em especial nos melodramas (aliás, a musiquinha que toca é tema de Luzes da Ribalta, de Chaplin), usado como gatilho emocional e rememorativo, quando aparece aqui, está completamente destituída de pieguismos exagerados ou cafonices sentimentais, embora é nessa chave do sentimento que ela embala.

Até aí o filme já conquistou a permissão para apostar em algo que seja mais caloroso e aprazível para aqueles dois homens em estado de quase suspensão – evidente que Kong está mais na fossa que Non –, e isso poderia beirar o brega. No entanto, seu uso narrativo apenas reforça o estado de incompletude que os personagens experimentam, o momento que eles conseguem expandir esse sentimento por mais algum tempo e o vão de solitude em que eles são jogados logo após. Enquanto isso, os dias apenas passam.

Dias (Rizi, Taiwan/França, 2020)
Direção: Tsai Ming-liang
Roteiro: Tsai Ming-liang

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos