Mostra SP (curtinhas): Casa de Antiguidades / Sibéria / Summertime / Malmkrog

Casa de Antiguidades

Os embates sociais e de classe ganharam um campo de atuação muito fértil no cinema brasileiro dos últimos anos, daí que a noção de resistência parece muitas vezes inerente a esse tipo de cinema de enfrentamento e luta. Casa de Antiguidades, primeiro longa-metragem de João Paulo Miranda Maria, entra nesse jogo ao colocar no centro da narrativa um senhor negro (Antônio Pitanga), um tanto solitário, tendo de enfrentar um entorno hostil a sua pessoa, tanto no trabalho dentro de uma fábrica de laticínios, como na vizinhança opressora. Os confrontos que se desenham aqui são bem frontais e diretos, tensionando os conflitos de modo muito corajoso e com as duras consequências de desenhando diante de nossos olhos, às vezes até com certa rapidez, e isso é louvável no longa. Mas o filme também faz uma escolha por uma composição de cena atmosférica e simbólica, ajudada por uma rigidez formal e estética que promete mais do que cumpre no jogo de expectativas e de anticlímaxes que o filme constrói ao longo da narrativa. Nesse sempre forma e conteúdo parecem se equilibrar bem, mas é um conceito narrativo que se sustenta até o fim (bem como a ideia do instintivo e animalesco como pulsões humanas mais primitivas, ideia martelada pelo filme a todo instante), de forma muito segura até, mas dentro das suas inconstâncias.

Casa de Antiguidades (Brasil/França, 2020)
Direção: João Paulo Miranda Maria
Roteiro: João Paulo Miranda Maria e Felipe Sholl

 

Sibéria

Demora um pouquinho pra gente entender que Sibéria propõe uma viagem muito louca pela psique humana, os traumas do passado e os demônios incansáveis digladiando-se no inconsciente que o personagem de Willem Dafoe acessa por algum motivo não explicado. Nada é de fato explicado nesse filme, apenas as sequências a sugerir cicatrizes psicológicas do passado, o pai, a mãe, os filhos e as mulheres sendo os deflagradores das memórias e das dores que persistem e insistem em atormentar. O maior problema com esse tipo de filme é que as situações são tão aleatórias, nebulosas e íntimas, num grau que não passa pela racionalidade, que aí vale tudo, pode tudo, tudo tem razão de ser, nada pode ser contestado ou “desvendado”, e então o filme deixa de ser convidativo em alguns sentidos. Poderia ter meia hora a mais ou a menos de duração, com o mesmo tipo de situações misteriosas e enigmáticas, camufladas pelas inconstâncias da mente humana, que não faria muita diferença no final das contas. O filme apenas cansa e me afasta. Adoro você, seu Abel Ferrara, mas dessa vez não rolou.

Sibéria (Siberia, Itália/Alemanha/Grécia/México, 2020)
Direção: Abel Ferrara
Roteiro: Abel Ferrara e Christ Zois

 

Summertime

Um amigo meu, cinéfilo iniciante, tem visto muitas coisas nessa Mostra, mas me pediu uma sugestão de filme “não muito pesado”. Por sorte, eu tinha acabado de ver Summertime, do Carlos López Estrada (o mesmo do ótimo Ponto Cego), e parece o filme mais espirituoso dessa edição da Mostra. Difícil até encontrar outro filme com a mesma pegada dentre a programação do evento (de fato, o zeitgeist mundial não tá lá muito feliz). Summertime é uma delícia de filme não só porque vários personagens (talvez interpretando versões similares de si mesmas) cantam e fazem rima de rap nas ruas de uma colorida e multiétnica Los Angeles em pleno verão, mas porque segue uma lógica interna muito própria a guiar a narrativa, sustentando seu conceito até o fim, com segurança e animação. Tem uns discursos ingênuos, alguma vontade de lacração e, pela estrutura em esquetes, possui algumas sequências um tanto fracas. Mas o filme pulsa de forma calorosa e jovial, não se importa com verossimilhanças, além de apresentar uma coleção de personagens impagáveis com suas manias, dores e sapiências populares. Às vezes é o filme que a gente está precisando ver depois de um dia daqueles.

Summertime (EUA, 2020)
Direção: Carlos López Estrada
Roteiro: Carlos López Estrada, Vero Kompalic et.al.

 

Malmkrog

Cinema de encenação rígida, um tanto distante do caráter mais realista-naturalista de muitas produções recentes vindas da Romênia, Malmkrog é uma prova de resistência: numa mansão em fins do século XIX, pessoas da aristocracia conversam e debatem sobre os mais variados temas (morte, moralidade, guerra e o que mais se desenhar à frente). Cristi Puiu adora esse tipo embate entre personagens – em Sieranevada, seu filme anterior, ele acompanhava por três horas as conversas e desentendimentos dos membros de uma família reunidos numa casa para certa data comemorativa – e pega emprestado um texto do filósofo russo Vladimir Solovyov para compor seu jogo de cena burguês enquanto tour de força intelectual que se trava entre os sujeitos ali. Mas o próprio ambiente sisudo parece contaminar todo o filme com sua impenetrabilidade e frieza enquanto se discutem questões filosóficas, políticas, religiosas intermináveis (o filme acaba antes que um dos personagens volte à cena, pois saiu para buscar um texto que gostaria de ler para seus companheiros; ou seja, o filme termina, mas as discussões nunca acabam). Parece mesmo uma peça que o diretor prega no espectador, bastante bem exemplificada por uma situação que toma de assalto a trama no meio do filme, causa um surpreendente abalo, mas que depois é simplesmente ignorada e esquecida. Se não precisa se importar com isso, é pra se importar com o quê mesmo?

Malmkrog (Romênia/Sérvia/Suíça/Suécia/Bósnia e Herzegovina/Macedônia do Norte, 2020)
Direção: Cristi Puiu
Roteiro: Cristi Puiu

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