Mostra SP: City Hall

Do alto dos seus 90 anos de idade e dono de um corpo de obra invejável no âmbito do documentário direto, Frederick Wiseman é hoje um dos maiores cineastas em atividade no mundo. Cada novo filme seu parece apenas reforçar o talento e o estilo lapidados em anos de trabalho e aperfeiçoamento de um modo próprio de fazer cinema, dentro de um formato muito reconhecível e experimentado por tantos outros cineastas por aí. City Hall é o mais recente acontecimento de Wiseman porque é bater o olho na primeira meia hora do filme para entendermos que estamos diante de mais um de seus grandes trabalhos.

O mais curioso é que não parece haver surpresa nenhuma nisso – nem que o filme seja ótimo, nem que ele, mais uma vez, alinha-se perfeitamente com o que se espera dele em termos narrativos: uma câmera que observa e documenta um espaço. É importante frisar isso porque, em grande medida, o cinema de Wiseman concentra-se em lugares físicos, algo que se revela nos próprios títulos dos filmes (Academia de Boxe, Em Berkeley, Crazy Horse, National Gallery, para ficar em exemplos mais recentes) e a partir disso reverbera nas ações humanas. O lugar da vez é a prefeitura da cidade de Boston, inicialmente pensada como espaço de representação dos poderes públicos.

Mas Wiseman logo faz ver que os braços da prefeitura se expandem para além dos muros do imponente prédio que sedia o poder local, chefiado no período das filmagens pelo prefeito democrata Marty Walsh. No intuito de perscrutar e espiar aquele ambiente, City Hall acaba testemunhando um punhado de discussões internas que denotam as responsabilidades e demandas do poder municipal – desde o recolhimento do lixo, passando pelas cerimônias de casamento civil, mas com especial atenção aos debates abertos que envolvem os representantes da população civil e os grupos sociais engajados no diálogo com as instâncias administrativas da oficialidade.

E um dos maiores trunfos do filme, que é também uma das grandes habilidades aperfeiçoadas por Wiseman ao longo dos anos, é o de transformar os fragmentos de cenas em grandes blocos narrativos que situam, no caso deste filme, o trabalho que é feito em desdobramento ali, dentro e fora do gabinete do prefeito – muito além dele, pode-se dizer, aliás. O filme nos insere, pela presença da câmera, em situações de foro quase privado (muitas vezes em salas fechadas com pessoas discutindo os próximos passos administrativos ou trazendo à luz questões que precisam ser pensadas e resolvidas pela prefeitura) dos quais somos testemunhas de uma parte das discussões, apenas de uma fração da tarefa de reflexão antes da execução. City Hall não tem a intenção de se engajar nas lutas e embates que se travam ali, mas é capaz de nos deixar a par do que se projeta em termos de debate e demandas sociais da comunidade.

O maior entendimento, certamente, é de que tais fragmentos de cena não são puramente ilustrativos, mas sim compreensivos. Eles continuam sendo fragmentos – muitas vezes não vemos como determinadas reuniões começam e nem como terminam –, mas o longa permite que nos situemos minimamente nos debates que estão sendo travados naqueles ambientes. O filme se beneficia da longa duração para fazer com que tais blocos de cena, não tão curtos assim dentro de um filme de 4h30, sejam mais que suficientes para um entendimento maior das situações, em camadas muito diversas, captadas por cada experiência de fruição. E, como força motriz maior, faz ver o fator humano que está por trás de toda aquela estrutura, física e burocrática.

City Hall (Idem, EUA, 2020)
Direção: Frederick Wiseman

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