Mostra de Tiradentes: Oráculo

“Levantado do chão” é o título de um curta de Melissa Dullius e Gustavo Jahn que está na programação dessa mesma edição da Mostra de Tiradentes, e bem que poderia ser o título deste longa da dupla. Logo no início um personagem acorda deitado numa pedra alta e tenta se recompor – se situar, se encontrar, se entender, se levantar. Cambaleante, meio tonto, ele empreende o esforço de se erguer, mas continua perdido, avariado. Pois Oráculo, assim de supetão, me parece um filme de gente que está à deriva.

E não estamos todos nós depois de quase um ano de isolamento social assolado pelo fantasma da pandemia? Oráculo foi filmado entre Santa Catarina e Barcelona entre os anos de 2016 e 2019, portanto seria simplório enxergar no filme meramente um retrato dos tempos de agora (apesar da finalização do filme ter, possivelmente, ocorrido nos últimos meses), ou algo que corresponda a uma atualidade mais latente. De qualquer forma, não é errôneo notar que todos os personagens do filme são vistos assim, meio que largados, escamoteados e sempre solitários – mesmo as duas moças, uma adolescente e outra de meia idade, que compartilham uma mesma paisagem, um mesmo pano-sequência, elas não se cruzam. A solidão é um estado de espírito neste filme.

O desejo de encontro, no entanto, também está lá, seja na sequência da garota que canta e toca ao violão uma música sobre o fim de um relacionamento (apesar da esperança de reconciliação), bem como na jornada do cambaleante rapaz no início do filme, quando ele avista uma mulher numa pedra ao lado e se lança na tentativa de alcançá-la.

Oráculo, na sua estrutura de esquetes, aparentemente independentes entre si, permitem tais interconexões, ainda que muito livremente. A dimensão da paisagem (a beira-mar como espaço de espera e de reação dos corpos) e da deambulação, ou sua tentativa (como forma de encontrar movimento e reação) são outras constantes que perpassam pelo longa, não sem antes esbarrarem na noção de tempo. Não apenas porque os planos são alongados ao máximo, pela força de sua própria integridade cênica (narrativa talvez?), como é comum a esse tipo de cinema de fluxo, mas porque a ideia de espera e de passagem do tempo de alguma forma estão lá presentes – o que seria aquela sequência da jovem e da mulher senão o retrato de uma mesma personagem que sai e retorna anos mais velha, conservando o mesmo ar de melancolia, diante da mesma paisagem (uma elipse que se dá no interior de um plano-sequência)?. Estamos todos à deriva e cansados, mas o tempo segue seu rumo, e queremos encontrar.

Oráculo é um filme muito menos pretensioso que o longa anterior da dupla, Muito Romântico, em que as possibilidades de união e desavença de um casal são postos  à prova de forma mais presente, numa estranha Berlim, também a partir de uma série de elementos e encadeamentos não necessariamente lógicos, que se engendram no filme. Em Oráculo é quase o inverso que se dá, uma vez que se trata de um filme muito mais enxuto em termos de constituição de cena, mas não por isso menos repleto de sentidos e possibilidades interpretativas.

O certo é que Dullius e Jahn parecem acreditar e apostar na força dos planos, dos blocos de cena que eles trazem para o filme, a partir de um interesse genuíno na composição audiovisual (filmado aqui em película 16mm). Isso não garante necessariamente que tais imagens reverberem bem ou de modo a constituir sentidos no público, ainda mais num filme tão aberto como esse, mas Oráculo se fortalece como experiência de empatia por aquilo que – como o tempo – segue sendo, se erguendo e se levantando do chão, quando os dias de hoje são cada vez mais adversos.

Oráculo (Brasil, 2021)
Direção: Melissa Dullius e Gustavo Jahn
Roteiro: Distruktur

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