Jogo de cena

Anna Karenina (Idem, Reino
Unido, 2012)
Dir:
Joe Wright
Num
filme em que cinema e teatro se cruzam como uma narrativa assumida enquanto linguagem
pretendida, é bastante pertinente que se comece com uma cortina se abrindo para
o púbico. É o que acontece nesse Anna
Karenina
, mas com uma diferença: essa cortina é um desenho numa placa que
sobe e revela ao público o palco do espetáculo. Eis aí um belo artifício de
introdução a esse peculiar jogo de cena a ser utilizado durante todo o filme.
E
que belos riscos esse filme apresenta. Joe Wright, do ótimo Orgulho e Preconceito (para ficar num
bom exemplo de romance de costumes antigos), assume muito bem um misto de
encenação teatral e cinematográfica, para além da beleza que uma história de
época carrega no todo. Enquanto aquele era muito mais clássico na sua roupagem melodramática,
a Anna Karenina de Leon Tolstói ganha
aqui a mão e visão inquieta de Wright, que se arvora em abusar dos recursos
cenográficos em evidência, alcançando um tom teatral quase farsesco, para levar
adiante sua história.
Mas
mais do que um capricho de querer fazer diferente, ainda mais por se tratar da
adaptação de um clássico da literatura universal que já foi levado tantas vezes
para o cinema, o diretor consegue fazer comentários muito interessantes sobre
os personagens, seus dramas e as situações que eles enfrentam através dessas
suas brincadeiras de cenografia.
Porque
a história da mulher casada e aristocrática (Keira Knightley) que se apaixona
perdidamente por um jovem (Aaron Taylor-Johnson) já comprometido com outra moça
não é das mais originais. É aí que entra a desfaçatez da narrativa, tendo o
palco como espaço de transmutação de ambientes, mais do que o plano que corta e nos coloca
em outro espaço. A protagonista se movimenta e vê um cômodo transformar-se em outro, encurtando
as distâncias. Com um simples rolar de trilhos, o ambiente das ruas de Moscou
dá lugar a uma região campestre gélida no interior do país.

Daí
que o filme nos presenteia com um punhado de ótimas cenas, as melhores delas
quando abandona de vez a naturalidade da encenação e se abraça o artifício mais
visível. Numa delas, depois de brigar com o marido dentro de uma carruagem,
Karenina sai para a rua, encontra um labirinto de sebes, vai sacando as roupas
que a sufocam e, surpreendentemente, encontra o jovem amado e o abraça. É desse
atrevimento que o filme se alimenta e ultrapassa a simples história do amor verdadeiro
que luta contra as convenções sociais para se concretizar. 

Mas ainda assim, enquanto tece suas brincadeiras
narrativas, o filme dá a dimensão exata dos enfrentamentos contra os quais essa
mulher luta para ficar junto de seu amado. Flertando com o melodrama mais
rasgado e bem conduzido, Anna Karenina
é um esforço de realização e encenação bonito de se ver, transformando a
história batida de amor em algo bonito de se sentir.

4 thoughts on “Jogo de cena

  1. Acho que "Anna Karenina" tem um trabalho incrível de cenografia. Joe Wright se mostra um diretor cada vez melhor. Meu único problema com esse filme é o segundo ato, quando a traição da protagonista finalmente é colocada em prática: a história vira uma novela enjoada, evidenciando também a falta de força dos atores para os papeis tão intensos.

  2. Apesar do belo jogo cenográfico, muito bem descrito no texto, esse "Anna Karenina" é um saco. Ao final do filme, não houve nada na história que me arrebatasse. Aliás, acredito que a adaptação corre o risco de ser confundido com qualquer outro romance de época. Também acredito que a escalação do elenco central foi um erro, uma vez que Keira Knightley nada mais de novo tem para oferecer em papéis desse tipo e Aaron Taylor-Johnson é fraquíssimo.

  3. Recomendo muito, Antonio. Ainda mais que tanta gente tenha batido no filme somente por esses desprendimentos narrativos.

    Matheus, não vejo esse tom de novela enjoada que você aponta, mas concordo que os atores poderiam se dar um pouco mais. Meu medo é justamente cair no excesso num filme que já se mostra tão over e cheio de efeitos de cenografia.

    Como assim confundido com qualquer outro romance de época, Alex? Qual filme de época tem a coragem de trabalhar a cenografia assim? Acho esse um fator que justamente o diferencia de tantos outros produtos de época que se tem por aí, gostando ou não dele.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos