IX Cinefuturo – Parte II

 

que escrevo tão pouco sobre curtas (apesar de adorar o formato e acompanhar boa
parte do que tem sido feito no Brasil), aproveito a competitiva baiana de
curtas-metragens do Cine Futuro para arriscar algumas palavras sobre o que nos
foi apresentado nessa edição. A primeira parte vai aqui:
 
 
Carranca (Idem, Brasil,
2014)
Dir:
Wallace Nogueira e Marcelo Matos de Oliveira

uma construção curiosamente dúbia em Carranca: se o filme coloca o espectador
no lugar mítico que existe em torno das antigas peças produzidas artesanalmente
num ambiente ribeirinho interiorano, faz
isso a partir de um registro muito naturalista, sem deixar de invocar certo
psicologismo dae sua protagonista.
 
Aqui,
uma garota (Rafaela Souza) leva uma carranca pelo rio; deixa a peça cair na
água e esta vai parar nas mãos de um estranho menino (Guilherme Silva) que lhe
recusa devolver. A conversa que abre o filme dos dois velhos artesãos sobre a
existência ou não do Nego d’Água acende aqui o mistério, sem que o filme queira
responder bem essa questão.
 
Mas
uma pergunta vital é preciso ser feita aqui: por que Carranca tem uma estrutura narrativa tão parecida com Menino do Cinco, filme anterior da dupla
de diretores? Mais uma vez temos duas crianças em polos distintos, sendo que
uma tomou posse de algo da outra e não quer devolver.
 
O
problema nem é o “autoplágio”, mas o fato de, numa nova ambiência, Carranca não
conseguir se sustentar por si só (e faz com que Menino do Cinco se torne ainda melhor como narrativa). Dá a
impressão de que falta mais filme porque é difícil se importar com aquela
menina, de saber por que ela se apega tanto àquela carranca, do que de fato ela
tem medo. Antes de dar uma luz sobre essas questões a história termina (de
forma similar a Menino do Cinco!), abortado
e sem construir com mesmo afinco um núcleo próprio.
 
 
Ifá (Idem, Brasil,
2015)
Dir: Leonardo França
A
pesquisa de Leonardo França com o filme ensaístico e com a dança é uma marca muito
própria de seus trabalhos como diretor. Ifá
é um belo desdobramento desses caminhos narrativos, mas também um filme que se
confecciona através mesmo de seu processo, um dispositivo curioso e instigante.
 
Num
terreiro de candomblé, um jogo de búzios é pedido pelo diretor a um babalorixá. França quer saber os caminhos do próprio filme que está fazendo. As falas do velho
e suas histórias guiam a narrativa pelos caminhos performáticos que se
apresentam nesse processo de ouvir e reverenciar.
 
As
fábulas míticas da religião afro ganham belas representações pelos corpos e
pulsões de Paula Carneiro, Michelle Mattiuzzi e Gabriel Pedreira, cada qual incorporando
alguns orixás e seus comportamentos/personalidades nesse jogo de flertar com a
câmera e com as possibilidades do destino que se desenham à frente.
 
França
possui um olhar estético bem apurado para esse tipo de visão poética, além de
muito reverencioso para com os preceitos religiosos. E o filme tem mesmo a qualidade
de nunca se revelar previsível, assim como não são os caminhos dos homens e seu
destino.
 
 
Ritual Pam Pam
Pam

(Idem, Brasil, 2014)
Dir: Ramon Coutinho
 
Ramon
Coutinho e cia. (membros do Cual – Coletivo Urgente de Audiovisual) mantiveram o
mistério até o fim: chegaram com esse filme que prometia um olhar para ritos
ancestrais e a relação dos povos com a dança, certa contemplação do movimento
do corpo que possa levar a uma comunhão com algo maior.
 
No
fundo, é isso mesmo que eles apresentam aqui, só que numa perspectiva que pega
o espectador desprevenido. Surpreende porque desloca o olhar de certa
“religiosidade”. Com uma música de fundo retirada dos rituais indígenas e de aborígenes ameríndios, filma jovens urbanos dançando nas ruas, diante de
paredões de som e das caixas acopladas em carros. Descem e rebolam até o chão
em movimentos ritmados que conhecemos do funk ou do pagode.
 
É
um cenário claramente urbano e, mais que isso, também periférico, reconhecível como de culturas vistas como marginalizadas. Mas não seria essa também uma forma de
religião, de comunhão espiritual, de alegria do corpo (e da alma)? 
Ritual Pam Pam Pam nos faz pensar na política
do corpo em movimento como forma de resistência a certo padrão cultural.
Objetivo e pontual, o curta não se pretende ser nenhum tratado social, mas é
louvável pelo deslocamento que sua premissa provoca.

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