Grandes diretores podem se repetir?

Tem gente que desce do salto se ouvir alguém dizer que Hong Sang-Soo faz sempre o mesmo filme. Não pode, é heresia. Esse tema dos autores repetindo suas fórmulas causa discussões acaloradas – há quem defenda uma autoralidade constante, há quem se cansa de ver as mesmas estratégias narrativas serem repetidas à exaustão.

Me peguei pensando nisso ao assistir, aqui na Mostra SP, a O Jovem Ahmed, filme novo dos irmãos Dardenne. Esses são cineastas que imprimiram uma marca autoral difícil de apagar, mas nos últimos anos já vinham dando sinais de cansaço. Eu, na verdade, gosto de muitas coisas deles mesmo da fase mais-do-mesmo (O Silêncio de Lorna, O Garoto da Bicicleta).

Daí com Dois Dias, Uma Noite a coisa vai se complicando, o que chega a níveis indefensáveis em A Garota Desconhecida, filme de roteiro preguiçoso. Mas quando O Jovem Ahmed começa – cena de um adolescente subindo apressadamente as escadas, câmera na mão tentando acompanhá-lo por trás, ausência de trilha sonora – os elementos que fizeram o cinema dos irmãos belgas estão lá, todos repetidos. Mas o filme é bom. O roteiro oferece oportunidades para que os rumos do protagonista sigam caminhos inesperados e provoquem certas inflexões que só ajudam a dimensionar melhor esse personagem trágico. Logo escreverei mais sobre o filme.

Ou seja, tem ficado claro pra mim que não tem problema se repetir, o que não pode é nivelar por baixo e se proteger por trás de um programa de efeitos narrativos gastos. É super bom quando um cineasta se reinventa, mas ficar na zona de conforto estética não significa necessariamente estagnar seu escopo de discussões. Pronto, fiz as pazes com os irmãos Dardenne. Precisam de prêmio de direção em Cannes? Não. Mas tudo bem também.

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