Formatando heróis

RoboCop (Idem, EUA,
2014)
Dir:
José Padilha

É
curioso como um filme de ação consegue se estabelecer mais pela discussão de
questões sócio-políticas do que propriamente pela adrenalina. Era assim no RoboCop original (embora ali a ação
fosse mais eficiente em termos de entretenimento), dirigido pelo holandês Paul
Verhoeven. Curiosamente, Hollywood exporta mais um cineasta, o brasileiro José
Padilha, para dar outra cara ao policial do futuro.
O
que se busca aqui é uma nova gênese desse policial meio homem, meio máquina, apto para livrar a cidade da criminalidade sem risco à sua integridade,
poupando junto a vida de muitos outros policiais. Aqui é possível notar como Padilha
conseguiu, num produto hollywoodiano, feito para o mercado de entretenimento, remake de um filme super cultuado,
incluir preocupações que são muito caras a ele enquanto cineasta, como visto em
Tropa de Elite e sua continuação: a
constituição de um herói no corpo (literalmente) de um oficial da polícia.
A grande pergunta que se coloca aqui é: como seria o policial ideal
para combater a alta criminalidade de uma cidade? Ok, não sejamos ingênuos de
achar que o conglomerado OmniCorp, responsável pela idealização e criação do homem-robô,
deseja o bem comum da sociedade e a simples segurança da população, mas antes
uma forma de lucrar financeira e politicamente com a revogação da lei que
proíbe a utilização dessas máquinas oficiais nas cidades dos Estados Unidos.
O
ideário de um policial perfeito, que possa garantir ambas as coisas (100% de
eficiência no arriscado trabalho nas ruas e um lobby gigantesco para seus
criadores e financiadores), é uma discussão que o filme persegue a todo
instante, e talvez o que o diferencie em maior grau da obra original.
O
policial Alex Murphy (Joel Kinnaman), depois de ter o corpo quase que
completamente destroçado num atentado contra sua vida, é transformado então no
RoboCop. A grande questão é o quanto do emocional deve permanecer nele e o
quanto de inteligência artificial deve comandar suas ações. Os embates entre sua família, a
esposa vivida por Abbie Cornish e o filho pequeno dos dois, e o ganancioso Raymond
Sellars (Michael Keaton), que por sua vez entra em confronto com o
médico-cientista Dr. Norton (Gary Oldman), responsável pela criação do
homem-máquina, movem os conflitos do filme.

São
esses arcos dramáticos que Padilha e o roteiro assinado por outros nomes conseguem
desenvolver com certa habilidade, tropeçando quando muda repentinamente
as aspirações de alguns personagens (como Sellars que, inicialmente, quer uma
máquina que haja como humano, e depois passa a exigir um comportamento mais racional,
mecânico, do RoboCop). O filme também deixa somente para a parte final as cenas
de ação mais empolgantes.  

As
comparações com o trabalho de Verhoeven são inevitáveis porque os filmes
tangenciam questões sociais, políticas, familiares e de teor humano muito
próximas, embora com focos de olhar distintos. Quando os telejornais,
impressionantemente sutis na sua maneira de criticar o preconceito e a mentalidade
tacanha do americano médio no filme anterior, cedem lugar a um programa
sensacionalista e de tons exagerados, comandando por Samuel L. Jackson, nesse
novo filme, vê-se uma forma corajosa de atualizar as questões que permeiam a
criação e os dilemas que envolvem o RoboCop. A sociedade que o cria estará sempre tomada de
vícios.

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