Festival Varilux – Parte II

De Cabeça Erguida (La Tête Haute, França, 2015)
Dir: Emmanuelle Bercot

Filme de abertura do Festival de Cannes deste ano, De Cabeça Erguida traz para a programação do Varilux uma abordagem séria no melhor estilo do drama social francês. Logo no início, uma mãe abandona seu filho pequeno na sala de uma juíza de infância. O menino é levado para uma instituição e cresce como garoto problema infringindo a lei quando bem entende.

Malony (Rod Paradot, em seu primeiro papel para o cinema) é esse jovem irascível, com propensão à violência e a quebrar as regras, de personalidade agressiva e arisca. Acha que está no mundo de brincadeira, não encontra limites. É a esse personagem torto e bestial que o filme se apega, via sistema social que tenta dar um rumo melhor à sua vida.

Estão lá o juizado de menores, na pessoa da juíza Florance (Catherine Deneuve), e o tutor Yann (Benoît Magimel), entre outros, trabalhando para reajustar a vida do rapaz. A mãe (Sara Forestier) também retorna à cena, mulher que vai e volta ao vício de drogas, de juízo fraco e com a mesma dificuldade em domar o filho. Representa a estrutura emocional e familiar que tanto faltou à formação de Malony.

Bercot acompanha a trajetória desse garoto, mas também dedica especial atenção para filmar o esforço de juízes, educadores e assistentes sociais em tentar recuperar esse e tantos outros jovens, uma espécie de tour de force contra a natureza colérica desses pequenos infratores.

O filme mesmo questiona até que ponto esses jovens têm condições de serem recuperados e reinseridos na sociedade, resgatados de seu próprio gênio autodestruidor. Mas mais importante é que, assim como esses profissionais, o filme não desiste de seu personagem, nem o trata com desconsideração ou mesmo falta de carinho. A inclusão de um caso amoroso (que cresce em proporções inesperadas) é uma maneira de abrandar uma visão puramente negativa sobre ele, ainda que seja agressivo mesmo com aqueles que ama.

Mas uma escolha inteligente do filme é a de nunca evitar as consequências duras que as ações de Malony têm para todos ao redor e para si mesmo. Sua personalidade colérica não se aplaca tão facilmente, mesmo quando saídas possíveis estão na sua frente, à sua disposição.

De Cabeça Erguida é esse filme que não ignora os dramas que se dispõe a observar. Não tenta ser definitivo sobre os rumos de Malony, muito menos força mudanças que soem drásticas em sua “recuperação”. Ainda assim, consegue ser humanista e emotivo no ponto certo.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos