Festival de Brasília – Parte VI

Santoro – O
Homem e sua Música

(Idem, Brasil, 2015)
Dir:
John Howard Szerman

Depois
de A Família Dionti, esperava-se que
a mostra competitiva de longas-metragens do Festival de Brasília fosse assumir
uma postura mais rigorosa na escolha dos filmes. Mas eis que o festival nos
surpreende e apresenta Santoro – O Homem
e Sua Música
. Apresenta no sentido de nos fazer conhecer o maestro e
regente amazonense, radicado em Brasília, pouquíssimo conhecido e reverenciado
no Brasil; mas também apresenta um projeto de filme que não poderia ser mais
deslocado numa competição de festival.  
Isso
porque o documentário de John Howard Szerman não poderia ser mais didático e conservador
do que é. Ilustrativo num sentido negativo, o filme desde o início não esconde
sua facilidade – ou desleixo narrativo – em seguir a cronologia de vida o
grande artista que foi Cláudio Santoro. Um exemplo: ao apresentar uma de suas composições
intitulada Impressões de uma Usina de Aço,
o filme cai na facilidade de ilustrar a canção com imagens aleatórias de uma
usina de aço.
Esse
tipo de recurso fácil, pouco inventivo para um documentário que já é marcado
por lugares comuns do gênero – difícil fugir das cabeças falantes, o que nem
sempre é um problema – só enfraquece o todo e torna enfadonho acompanhar os
passos do homem e as belas composições que criou, muito diversificadas para um
maestro.
Além
disso, longe de desmerecer a trajetória e criação de Santoro, o filme carrega
um ar conservador, muito pela escolha de vozes de certa elite artística para
depor diante da câmera – o que só nos distancia desse personagem riquíssimo –, mas
também um ar conciliador, chapa branca na maneira como se esforça para dizer, como se
corresse contra o tempo, como Cláudio Santoro foi um grande artista e o quanto
ele tem sido injustiçado na cátedra artística nacional. Não há fissuras,
pontos de debate e aprofundamento, o que faz de um filme já sem invenção um
trabalho dos mais decepcionantes.
Prova de Coragem (Idem, Brasil,
2015)
Dir:
Roberto Gervitz 

Outro
mistério que ronda a seleção de longas desta edição em Brasília é a inclusão de
Prova de Coragem, filme que encerrou
a competição. O filme possui uma abordagem claramente mais clássica, embaralhando
um pouco presente e passado, mas com abordagem contínua, em fluxo de causa e
consequência. Seria um belo contraponto a obras mais desafiadoras vistas aqui,
isso se o tratamento não fosse tão fraco em termos de cinema e narrativa.
Baseado
no livro Mãos de Cavalo, do gaúcho
Daniel Galera, Prova de Coragem
investe no drama de um casal que se desentende num momento crucial do
relacionamento: a artista plástica Adri (Mariana Ximenes) está grávida de
Hermano (Armando Babaiof), um médico aventureiro que se prepara para escalar montanhas
na Terra do Fogo, seu esporte preferido. Esse espírito aventureiro já estava
presente na adolescência, período que volta como flashback e resgata os primeiros
amores e as amizades feitas e perdidas, configurada como trauma que o
personagem esconde.
O
que faz de Prova de Coragem um inacreditável
fracasso é uma sucessão de equívocos conjuntos: o roteiro é fraco, os atores
não estão bem em cena e falta química entre eles; pra completar, a montagem do
filme não ajuda, nem na decupagem interior das sequências – os personagens mal
têm tempo para processar o que o outro fala para já disparar suas falas – nem na
finalização de cada sequência que termina como que a corte de facão. Parece que
tudo conspira para que cada cena seja mais embaraçosa que a seguinte.
Incomoda
mais como os diálogos do filme são repletos de frases de efeito, e os atores
são treinados a dispará-los sem contenção. Falta tempo para que o espectador
mature, adentre nos complexos sentimentos dos personagens, acompanhe e entenda
seus conflitos e, por fim, possa torcer ou não por eles. 

Supondo, na melhor
das hipóteses, que exista aí uma intenção de criar um ritmo ágil onde a peteca
nunca caia, uma espécie de regra de ouro que se segue à risca, é
incrível como o filme se autossabota o tempo todo. No fundo, parece faltar
mesmo é mais carinho por aqueles personagens que buscam estar de bem uns com os
outros e com suas consciências.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos