Festival de Brasília – Parte IV

Para Minha Amada Morta (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Aly Muritiba

 

Para Minha Amada Morta é o primeiro longa-metragem de ficção de Aly Muritiba – antes ele já havia feito o documentário A Gente, parte de uma série de filmes sobre o sistema carcerário brasileiro, tendo o próprio cineasta trabalhado como agente penitenciário por muito tempo. Agora o diretor surpreende ao enveredar por outros caminhos narrativos e encontrou no cinema de gênero um campo de reinvenção.

Apesar do título funesto e de estar em Brasília competindo também com um curta-metragem de tom sombrio e ameaçador, Para Minha Amada Morta comporta-se mais como thriller de investigação, ainda que com viés muito pessoal e íntimo. Trata-se de um filme muito estudado e introspectivo que faz ver um personagem em conflito constante com seus sentimentos e memórias.

O fato é que Fernando (Fernando Alves Pinto) perdeu a esposa, não se sabe bem como, mas acaba descobrindo que ela tinha um amante com quem filmava vídeos durante o sexo. O personagem, que já começa o filme em estado de apatia e pesar, provavelmente ainda superando o luto, fica e choque e desamparado. Mas nunca explode. Prefere ir atrás do homem com quem ela saia e, para surpresa, descobre outro seio familiar.

Salvador (Lourinelson Vladmir) é um ex-presidiário, agora evangélico, que reconstitui sua vida ao lado da esposa (Mayana Neiva) e a filha (Giuly Biancato). Fernando investiga inicialmente de longe esse núcleo para depois infiltrar-se nele, aproximando-se dele cada vez mais. Os dois homens criam uma espécie de aproximação desconfiada e o filme faz um jogo muito interessante com o espectador: no plano factível, nada nos é escondido, sabemos quem mente, quem omite o quê para o outro e por qual motivo; mas no plano introspectivo, não sabemos exatamente qual a real intenção de Fernando.

Fica claro que nem mesmo ele é dono de uma clareza de seus planos. Tentamos a todo instante desvendar a dimensão emocional em que o personagem se encontra e o que ele pode fazer com isso, com essa mistura de obsessão, destemor e rancor que carrega. Há uns bons momentos em que ele está na iminência de atacar Salvador (há uma longa cena de conversa em que ele trabalha com uma pá e chega a levantá-la, e outra cena em cima de um telhado que prenuncia uma tragédia).

É realmente impressionante como Muritiba consegue sustentar essa atmosfera de tensão e nunca fraquejar, nunca relaxar. Para isso, há alguns outros subtextos que o roteiro trabalha, como a proximidade de Fernando com a filha adolescente e com a mãe da garota, o que ensaia também uma tensão sexual entre os personagens.

Podemos falar então de uma espécie de tensão contida, anticlimática, uma força que se distende e com a qual o próprio protagonista também se confronta. Muritiba prefere uma composição de cenas baseada em planos-sequências ou fixos, levando ao limite a extensão do plano e, por consequência, o suspense da situação, estendendo esse suspense também ao espectador, ao mesmo tempo em que tentamos lidar com a paranoia do protagonista.

Fernando caminha no limite da vingança, ainda que faça menos o papel de psicopata e mais de homem traído que não deixa barato, obsessivo. Essa é certamente a melhor atuação de Fernando
Alves Pinto, tão contido como crível, homem de poucas palavras, como que paralisado diante do que para ele é uma tragédia, para além da tragédia que se anuncia durante o filme. No fundo, todo o elenco acompanha esse tom, o que faz de Para Minha Amada Morta um grande e introspectivo estudo de situação limite.

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