Experimentando o mundo

O Menino e o Mundo (Idem, Brasil, 2013)

Dir: Alê
Abreu
Há algo
de muito arriscado em O Menino e o Mundo.
Apesar do protagonismo infantil e atmosfera lúdica, trata-se de uma animação
com muito de subjetivo, repleta de simbolismos, crítica social e aposta na
sensibilidade e envolvimento do público para compreender os subtextos que são
apresentados. Mas o risco tem gerado bons frutos: o filme é o atual vencedor do
Festival Internacional de Animação de Annecy, o mais importante de todos nesse
formato (depois de passagem por vários outros festivais no mundo) e volta em
cartaz aos cinemas brasileiros depois dessa vitória.
É um
grande passo para Alê Abreu já que seu novo trabalho distancia-se de seu longa
anterior, Garoto Cósmico, de tom
claramente mais infantil, apesar do traço de ludicidade marcar presença forte
em ambos os filmes. Com pouquíssima tradição no campo da animação, Alê Abreu
prova que o cinema brasileiro também tem vigor nessa seara.
Das
escolhas narrativas que apelam para a subjetividade do público, O Menino e o Mundo configura-se como um
trabalho belíssimo de imersão. É certo que o espectador vê e ouve através dos
sentidos e da sensibilidade emocional do menino que descobre as coisas do mundo
ao redor. Ele vive no interior, vida simples, mas repleta de pequenas alegrias
que ele encontra nas belezas naturais à sua disposição, a despeito da pobreza da
família. Vê seu pai ir embora tentar a vida na cidade grande. Inconformado, o
garoto parte e se perde no mundo para achar o pai.
Em
termos formais, existe claramente um desenho de produção e de personagens
cuidadosíssimo, um espetáculo visual de encher os olhos com seu traço simples,
mas certeiro e criativo. Porém é no trabalho fenomenal de som e música que o
filme cresce. A própria escolha pela ausência de diálogos abre espaço para que
a criação sonora dê vida e personalidade não só aos personagens, mas também aos
cenários narrativos, muitas vezes com uma complexidade enorme de ruídos e sons.
É uma experiência realmente agradável aguçar os ouvidos para um projeto em que
o sensorial é tão bem explorado.
E mesmo
a bela canção Aos Olhos de uma Criança,
cantada pelo rapper Emicida nos
créditos finais, é retrabalhada no decorrer do filme, mas com um detalhe:
embaralhando as palavras. Isso porque no universo diegético da narrativa, as
falas dos adultos não são compreensíveis pelo menino, soam estrangeiras. É mais
uma forma de imergir nas percepções sensoriais do garoto diante de um mundo
cheio de mistérios.
Há de se
notar, no entanto, que o filme só perde quando resolve romper com o universo da
animação, acrescentando algumas imagens reais de desmatamento (retiradas, na
verdade, de longas brasileiros como Iracema
– Uma Transa Amazônica
). É o lado crítico-ambiental que se faz presente
aqui, mas soa mesmo desnecessário porque, via ludicidade, o filme já consegue
esse feito, sem a deixa de história panfletária. 

Ademais,
existem outras questões de cunho social que se fazem presentes e nem por isso
precisam de equivalentes live action:
o contraponto entre campo e cidade; a exploração dos trabalhadores braçais,
gente humilde em busca de oportunidades na selva de pedra; o capitalismo que
padroniza produtos e segrega a sociedade, enquanto lucram os já poderosos. Tudo
isso perpassa pelo caminho desse menino que experimenta o mundo, quase
ingenuamente, mas que aprende muito com o que apreende das coisas da vida.

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