Mostra Tiradentes – Parte VI

Ela Volta na
Quinta

(Idem, Brasil, 2014)
Dir:
André Novais Oliveira
Pode
parecer muito precoce atribuir ao cineasta mineiro André Novais Oliveira um
projeto de cinema tão sólido, ou mesmo uma marca autoral presente em sua curta trajetória
como diretor, apesar dos marcantes trabalhos em dois curtas e agora no seu
primeiro longa-metragem, Ela Volta na
Quinta
, que encerrou a Mostra de Tiradentes.
A
novidade aqui é que André abusa do íntimo e do autobiográfico para criar uma
narrativa ficcional carregada de um naturalismo irretocável. O curta Pouco Mais de um Mês já antecipava esse
tipo de fazer em que o próprio André encenava com sua namorada Élida as primeiras investidas de um namoro. Na vida real e na ficção, essas histórias e personagens se complementam,
com uma delicadeza prosaica que torna tudo tão encantador.
Agora,
com Ela Volta na Quinta, o cineasta dá
mais um passo nessa construção narrativa tão peculiar. Utiliza as personas de sua
própria família para encenar o fim do casamento do pai e da mãe, vividos pelos
próprios progenitores do diretor. Este, por sua vez, retorna à cena com Élida
(numa espécie de prosseguimento do curta anterior), mais o irmão e sua
namorada.
Todos
emprestam suas figuras particulares para a narrativa que segue seus próprios
caminhos. E todos parecem muito confortáveis aqui, entendendo bem o fio
narrativo que se tece no filme, como se aquilo fosse a extensão de suas vidas. Os
personagens comportam-se e conversam com a maior naturalidade possível, e o
filme chega a tocar na banalidade que há no nosso dia a dia (a cena do irmão
mostrando o vídeo no youtube é exemplar nesse sentido – e engraçadíssima também).
O
filme segue um ritmo todo particular, sem pressa, investe nas ações mais cotidianas
de pessoas comuns. Dá a impressão mesmo de que estamos invadindo a casa do vizinho
da rua de trás, adentrando sua intimidade e conhecendo os conflitos que se
desenham ali. Aos poucos vamos nos dando conta de que o distanciamento de D. Maria
José e de seu Norberto é inevitável, apesar do carinho e cuidado que ainda existe
ali.
É
notório que o caminho perseguido por André lança um outro olhar para as
relações interpessoais atravessadas pelo íntimo, pelo cotidiano de uma classe média
do subúrbio mineiro. Tudo isso coberto por uma doçura sem igual, vide a cena do
casal dançando Roberto Carlos na sala, desde já memorável. 

Ainda assim, o filme
pode ser visto não só como um retrato melancólico do fim de um relacionamento
duradouro. Num outro polo, ambos os filhos planejam com suas companheiras a
compra de um apartamento ou a chegada de um filho. Ou seja, querem formar uma
família, solidificar uma vida juntos. Assim, Ela Volta na Quinta resgata, da maneira mais singela e
desproposital possível, o ciclo da existência humana: nada é infinito, as
relações acabam e outras começam, a roda da vida não para.

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