CachoeiraDoc – Parte IV

Noite (Idem, Brasil, 2015)
Dir: Paula Gaitán

A noite musical do Rio de Janeiro e o corpo de uma mulher. Paula Gaitán leva sua câmera para a cena noturna carioca que tanta lhe agrada e atrai, fazendo de Noite uma espécie de ensaio poético sobre a pulsão do corpo diante da música. Há mesmo uma variedade de ritmos musicais que se apresentam ali, mas as batidas eletrônicas acabam dominando o conjunto.

Quem domina o filme também é a atriz Clara Choveaux, presença pela qual a câmera de Gaitán parece hipnotizada e sempre muito próxima, na pele. Mas é engano pensar que a personagem funciona como um guia pela cena musical do Rio – o filme não tem essa pretensão – ou mesmo que precise ressoar com uma resposta cadenciada à música. O filme se compõe de cenas livres em que a atriz não precisa necessariamente seguir o ritmo do que se ouve, antes embalar o ritmo do próprio filme.

A diretora permite-se criar uma série de texturas sensoriais, ressoadas é claro pela música que nunca para, mas principalmente pelas luzes, quase nunca artificiais, que colorem o corpo e os espaços que o filme observa. Há um aspecto de aleatoriedade nas sequências que se costuram no filme e nunca o torna previsível, embora não consiga escapar do redundante em muitos momentos. Apesar da proposta levada à experimentação e do filme começar muito bem e pulsante – algo que também acontece em Exilados do Vulcão, curiosamente protagonizado pela mesma atriz –, o filme testa a adesão do público e nem sempre mantém a força de atração e conquista.

Por vezes o filme deixa sua protagonista – ou seria a noite a estrela aqui? – e vaga por outros quadros; quando volta a ela, pode girar ao redor de um mesmo tipo de imagem que possui uma promessa de pulsão latente, mas também pode encontrá-la acompanhada de outras presenças femininas, performatizando para a câmera, justo quando o filme torna-se mais interessante. É aí que essa pulsão pela música, que parece ser a força motriz do filme, abre espaço também para outros impulsos: sexuais, libertários, sensoriais. A noite nunca termina.

Urihi Haromatipë: Curadores da Terra-Floresta (Idem, Brasil, 2014)
De Morzaniel ƚramari Yanomami

Um outro tipo de transe é o que promove esse curioso e exaustivo filme que pretende a observação de um ritual indígena. Mas não é mais um olhar de fora, do homem branco, que investiga com exotismo uma cultura “estranha”, e nem poderia. Essa câmera só está lá naquele ambiente privilegiado – ou seja, esse filme só existe – porque é visto de dentro.

Morzaniel Yanomami filma uma cerimônia de sua própria tribo, um grupo de xamãs de diversas regiões, reunidos numa sessão que busca promover a cura dos males da Terra, seja eles quais sejam. Não é um filme que se propõe a ser didático – até porque aqueles que o fazem não precisam disso. Daí que Urihi Haromatipë: Curadores da Terra-Floresta nos propõe uma ressignificação de olhar.

Isso porque, depois de introduzida a razão daquele ritual e mostrada a preparação e origem do rapé yakoana, tipo de pó alucinógeno usado no ritual pelos xamãs, o filme mostra como eles reagem ao contato com essa substância numa espécie de dança ou incorporação que os parece levar a um estado de transe muito específico, uma comunhão com forças espirituais maiores.

De qualquer forma, a um olhar menos treinado – como o meu e de muitos outros, tão distantes dessa realidade –, a experiência do filme vai da curiosidade ao fastio, inevitavelmente. Nada de muito diferente acontece durante o ritual e vemos como cada um daqueles participantes entrega-se à experiência do rito. Acaba que ver o filme também é uma outra maneira de abrir-se a uma experiência nova, não necessariamente feita para todos nós, mas que pode guardar alguns aprendizados.

 

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