Afeto no mundo cão

Heli (Idem,
México/França/Alemanha/Holanda, 2013)
Dir:
Amat Escalante
Amat
Escalante continua sua jornada a fim de retratar um certo mundo cão no México
atual, especialmente ligado à violência e ao narcotráfico que impera em muitas
regiões do país. Como em seus trabalhos anteriores, Sangre e Los Bastardos,
sua estética naturalista, quase impassível diante da desgraça que filma, está a
serviço de histórias brutais, sem concessões. Mas a grande diferença desse
filme em relação aos demais, e que faz Heli
estar bem à frente, é que aqui existe uma boa história para contar.
Nos
trabalhos anteriores o diretor estava muito mais preocupado na forma e na
brutalidade da ação dos homens nesse universo cruel, como que explorando a
violência unicamente pelo seu grafismo na tela. Acabava dizendo muito pouco sobre
seus personagens, quase caricaturas em si, e pelos quais era difícil ter alguma
consideração.
Em
Heli o diretor dá um passo adiante.
Ele consegue, de cara, nos afeiçoar a Estela (Andrea Vergara), essa jovem colegial
que se apaixona por Beto (Juan Eduardo Palacios), rapaz inconsequente envolvido
no contrabando de drogas. Ele passa a esconder mercadorias clandestinas na casa
da garota, o que traz problemas para sua família, em especial a seu irmão Heli
(Armando Espitia).
O
filme não seria um autêntico Escalante se já não começasse com uma cena brutal:
um grupo pendura o corpo morto de um jovem numa ponte, de cueca e com marcas de
sangue. O filme retomará essa sequência posteriormente, encaixada na história, à
medida que vamos entendendo, sem meios expositivos, os encadeamentos que envolvem
os personagens nessa teia de selvageria e horror.
Outro
ponto desse tipo de cinema mais naturalista é a utilização de atores não
profissionais, dando a seus personagens um tom marcadamente mais cru, mais
selvagem até. Reforçam o registro realista ao mesmo tempo em que faz o
espectador se condoer por sua condição, mas sem compaixões baratas. O pior
é a dor e o trauma que permanecem, a violência que frutifica, restando o
consolo que os integrantes daquela família  infeliz podem servir ao outro. 

É
muito interessante quando um diretor consegue construir esse universo que lhe
parece tão caro e o caracteriza bem, evoluindo, no processo, sua linguagem e
lapidando melhor sua narrativa. Heli
apresenta essa melhora e dá a impressão de estamos no mesmo terreno arenoso já
visto antes, inclusive através do mesmo tom de fotografia e ritmo de tempo. É
também a história de como a vida bandida e os perigos do narcotráfico invadem a
rotina dos indivíduos de bem, destruindo sonhos, suas famílias e passando por
cima da dignidade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos