A volta do que não foi

Encarnação do Demônio (Idem, Brasil, 2008)
Dir: José Mojica Marins

Confesso: quando eu era criança tinha medo do Zé do Caixão. Lembro ainda hoje de suas aparições na TV com aquelas unhas enormes e a cara de espanto falando sobre morte, funerais e caixões. O tipo de produção trash e grotesca de seus filmes só ganhou notoriedade no país quando, já em decadência, sua obra foi descoberta no exterior, ganhando ares de cult dentro do circuito alternativo. E aí Encarnação do Demônio se torna um tanto emblemático. Embora marque o louvável retorno dessa figura mítica, parece que o filme se justifica mais pelo retorno e não por uma obra puramente cinematográfica.

Mas para quem conhece e gosta do terror trash, escatológico e repulsivo de Mojica, saiba que ele se mantém fiel às suas origens. Após 40 anos no cárcere, Zé do Caixão ganha liberdade e volta a procurar a mulher ideal que possa geral um filho perfeito e perpetuar a linhagem macabra de seu sangue. Ao mesmo tempo, ele é perseguido por imagens macabras de seu passado, ou seja, as pessoas mortas brutalmente por ele.

Outra dissicronia é notada no filme: uma produção assumidamente B estranha por contar com um tratamento estético classe A, visível por uma fotografia intensa e direção de arte caprichada. Se esse esmero todo nos fornece belas imagens, esteticamente impecáveis, também minimiza o atrativo de seus filmes anteriores que, pelo simples fato de pertencer ao cinema trash, tinham graça justamente pelo descuidado e desarrocho de suas imagens.

O mundo de Zé do Caixão é imundo, fétido, e o personagem é impiedoso com suas vítimas. A gana com que ele persegue seu ideal só encontra razão de ser na gênese desse personagem, surgido anteriormente nos outros dois filmes que completam essa trilogia: o ótimo À Meia Noite Levarei a Sua Alma e o excepcional Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. Visto assim, a história possui algo de ingênuo, o que nos faz ter simpatia com Zé do Caixão, na medida em que ele se configura como o anti-herói macabro dos filmes.

Ao fim desse Encarnação do Demônio, o personagem chega a dizer algo do tipo: “Imagens são para sempre, capitão”. Essa fala marca a persistência do grotesco personagem no imaginário das pessoas. Por isso, esse cara de capa preta, unhas imensas e voz grave nunca deixará de ser um ícone do Cinema brasileiro; nem deixará de povoar os pesadelos de outras crianças (ou mesmo adultos).

13 thoughts on “A volta do que não foi

  1. Eu gostei mesmo do filme, achei sensacional, de morrer de medo, muito pior do que qualquer Jogos Mortais. Bem feito e com uma história super interessante, infelizmente eu não vi os outros dois, mas pelo que você diz eu vou gostar ainda mais, né? Depois dá uma lida no que escrevi no blog sobre ele, abraços…

  2. Então Johnny, talvez o problema do filme cult seja o fato de que já vem como selo de qualidade, mas nem sempre é lá essas coisas. E eu também vejo um exagero no culto ao Mojica, mas de fato o cara merece reconhecimento, pena que não achei o retorno à altura. Mas de qualuqr forma, é um belo retorno.

    Vinícius, o cinema trash do Mojica é muito cultuado aqui no país, vale a pena dar uma conferida nesse universo underground e sujo dele. E por mais que o filme não tenha ido tão bem nas bilheterias, espero que o Zé do Caixão ataque novamente.

    Cara da Locadora, que bom que você gostou, conseguiu embarcar mesmo na viagem (maldita) do Mojiica. De uma certa forma, ele merece essa festa em torno de sua volta. Irei no seu blog sim. Valeu!

    Iulo, você querendo ver filme do Zé do Caixão? Que coisa hein. Vi no cinema, ficou em cartaz no MovieCom por uma semana, justamente a semana da Mostra. Mas no sábado anterior eu fui lá ver. Saiu de cartaz rapidinho. Pra achar ele agora tá difícil.

  3. Até agora vi 3 filmes do Mojica (O Estranho Mundo de Zé do Caixão, À Meia-Noite Levarei sua Alma e Encarnação do Demônio) e gostei, apesar de não ter me transformado em nenhum fã do cineasta. Quanto ao Encarnação, é tecnicamente muito bom, mas tem algumas coisas das quais não gosto, conforme escrevi lá no blog quando vi o filme …

  4. Wallace, também não sou fã do Mojica, mas é preciso respeitar o trabalho do cara. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver é um filmaço. Vou procurar seu texto sobre A Encarnação lá no Crônicas Cinéfilas.

    Ih Fabiana, tô achando que você tem medo do Zé do Caixão. Por que não quer ver o filme?

  5. O Zé do Caixão foi um dos poucos personagens do cinema brasileiro que deu certo e que acabou se tornando cult…há o bizarro, mas faz parte do personagem. O Mojica em si é quase um doce, tirando a esposa chata que o acompanha…hehe
    De toda forma, a volta do Zé do Caixão fez barulho mais lá fora do que aqui no Brasil.^^

    Mob Cranb

  6. Realmente Mob, o Mojica construiu um personagem que marcou o nosso cinema. E já li muito mesmo sobre essa personalidade bastante gentil dele, só não conhecia essa parte da esposa chata. E é uma pena que o Coffin Joe seja bem mais popular no exterior que aqui. Aposto de daqui a alguns anos esse Encarnação do Demônio vai ganhar ares de cult, pode apostar.

    Hélio, conheci os filmes do Zé do Caixão esse ano, acho que justamente por causa de seu retorno. Para quem gosta de terror trash, os filmes antigos dele são maravilhosos.

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