Tempo

Vida em minutos*

O cinema que vem desenvolvendo o diretor indiano, mas radicado nos Estados Unidos, M. Night Shyamalan possui um contorno no mínimo curioso: ao mesmo tempo que busca preservar uma veia autoral, tenta se aproximar do grande público com histórias de mistério e horror com as suas já habituais surpresinhas no final, reviravoltas que muitas vezes ressignificam todo o filme (impossível não lembrar de O Sexto Sentido).

Tempo, seu mais novo longa, exemplifica bastante bem essa tentativa de equilíbrio entre os dois polos, muito embora apresente um Shyamalan em piloto automático tentando administrar uma trama com viés conceitual. O filme é baseado na HQ francesa Castelo de Areia, e o roteiro, por não ser uma peça original (o diretor geralmente escreve suas próprias histórias), talvez saia do prumo porque precisa lidar com muitas subtramas e um senso de mistério e medo que se sobrepõe à narrativa.

A ideia de temporalidade no cinema é bastante explorada e estudada, mas aqui a coisa é bem mais objetiva: iremos encontrar um grupo de personagens que vão parar numa praia paradisíaca até perceberem que o lugar interfere drasticamente no relógio biológico de cada um, já que eles começam a envelhecer rapidamente. Em questão de horas, é como se passassem anos na vida das pessoas.

No centro da história está a família de Guy (Gael García Bernal) e Prisca (Vicky Krieps), casal que passa momentos turbulentos na relação e enfrenta outras questões de saúde, acenando para um possível divórcio. Estão acompanhados de seus filhos pequenos (Trent, de seis anos, e Maddox, de 11) e partem para um resort de luxo a fim de oferecer aos pequenos alguma diversão antes de decretarem o fim – a dissolução da família é um tema bastante presente na obra de Shyamalan também.

Lugar paradisíaco, sol e mar, muita gente hospedada ali, e o gerente do hotel acaba oferecendo para eles e mais alguns hóspedes um passeio em uma praia super deserta que poucos conhecem. A isca foi jogada. O filme se passa quase todo nesse ambiente, ali onde o tempo age de modo perverso sobre eles – não só o envelhecimento, mas os problemas de saúde são acelerados e a sanidade vai se perdendo rapidamente.

Pistas

Nada será gratuito nos filmes de Shyamalan e aqui não é diferente. O cineasta é hábil em lançar sugestões várias no decorrer da trama, por isso é bom que o espectador mais atento busque colher as pistas que surgem no filme. Já de início, quando eles chegam ao resort, há os dizeres no quadro de boas-vindas: “Aproveite o seu tempo conosco”. Mais irônico, impossível.

O próprio gerente define a praia deserta para onde eles vão como uma “anomalia natural”, algo que irá se provar uma verdade assustadora. O susto de ver seu filho de seis anos agora no corpo de um garoto de 11, em questão de instantes, é tão assustador quanto os misteriosos acontecimentos que se sucedem na praia, desde o aparecimento de corpos na beira-mar, até situações mais drásticas, enquanto eles tentam fugir sem sucesso de um lugar que parece uma prisão.

Tempo flerta, portanto, com a ficção científica – apesar de isso ficar mais claro nos momentos finais do longa – e finca os dois pés no horror na medida em que grande parte do filme se concentra nas ocorrências mais misteriosas. Uma pena que muitas delas se atropelem já que aparecem personagens demais ali: outra família com quem eles já haviam cruzado no resort, um rapper solitário e um casal que surge depois, cada qual com seus dramas pessoais, intensificados pelos efeitos temporais do local.

Tempo rei

É claro que sendo este um filme de Shyamalan, há de se esperar um entendimento maior em relação a situação tão estranha e estapafúrdia que se experimenta ali, não só em termos práticos (a causa racional de tal fenômeno), mas também de modo metafórico, uma das práticas narrativas mais interessantes da obra do cineasta. Seus filmes, geralmente, vão muito além da superfície e aí encontraríamos a sua dimensão mais autoral.

O Sexto Sentido, por exemplo, não é apenas um filme sobre um garoto que enxerga pessoas mortas, mas é sobre a necessidade de afeto e de manter a família unida; Sinais não é apenas uma trama de invasão alienígena, mas reforça a importância da fé (religiosa e também a crença na família – ela mais uma vez).

Ou seja, o cineasta sempre utilizou o horror como forma de alcançar discussões e reflexões mais profundas para além de dar meros sustos nos espectadores. No novo filme, no entanto, é possível encontrar tal sentido maior apenas de forma superficial, nos esforçando muito para pensar sobre o impacto da passagem do tempo na vida das pessoas.

O tema é dos mais interessantes e ricos, mas o filme pouco consegue aprofundá-lo porque tem de dar conta de uma série de conflitos entre os personagens que se atropelam numa velocidade tão rápida quanto a própria dinâmica de envelhecimento que recai sobre eles. O drama do casal de protagonistas e a crise no casamento, por exemplo, anunciado no início do filme, acaba se perdendo por outros que também são bem mal conduzidos na trama.

É como se o debate estivesse ali latente, mas dessa vez o diretor está muito mais preocupado em desenvolver as surpresas e as cenas de horror que surgem repentinamente cada vez que se processa o envelhecimento de alguém – e as cruéis consequências sobre o corpo e a mente das pessoas, irreversíveis.

Daí, quando a resolução do filme desenha-se nos momentos finais e as peças do quebra-cabeça começam a se encaixar, o filme se entrega de fato aos dados mais básicos da explicação científica, enquanto sua maior proposição conceitual sobra diluída nos muitos dramas dos personagens.

Shyamalan sempre assumiu muitos riscos em seus filmes, em alguns casos ficando à beira do ridículo e do estapafúrdio – há alguns desses momentos aqui também. Mas no geral, a escolha foi pela segurança e por ofertar uma genuína peça de sci-fi medonho que se encerra em si mesmo, sem grandes sentidos mais amplos. Se ele continuará nessa pegada ou se voltará com desafios maiores, aí só o tempo dirá.

Tempo (Old, EUA, 2021)
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan

*Publicado originalmente no jornal A Tarde (edição de 15/08/2021)

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