Preparando o terreno

Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1, EUA/Reino Unido, 2010)
Dir: David Yates

Quando anunciaram que a última aventura da saga Harry Potter seria dividida em dois filmes, a notícia parecia muito bem-vinda. Agora, visto o filme, surge um desapontamento, pois essa primeira parte possui os mesmos defeitos dos outros longas: narrativa apressada, que, na tentativa de dar conta de tantas situações e personagens, atropela detalhes, tornando muitos momentos insatisfatórios.

Isso porque, se tomarmos como base toda a narrativa do último livro (que o filme segue fielmente), o roteiro dessa primeira parte termina no que eu chamaria de terço final do livro, momento em que a história ganha um ritmo alucinante até o fim apoteótico (o que aumenta consideravelmente as expectativas para a segunda parte do filme).

Faço essas considerações porque, como um relativo fã da história, é difícil se desprender dessas nuances de adaptação, muito embora, cinematograficamente, o diretor David Yates conduz com certa eficiência a narrativa. Não chego a adorar nenhum dos filmes da série (manterei essa esperança até meados do ano seguinte quando a saga tem fim no cinema), mas é inegável o fôlego que a história consegue manter até aqui.

Na verdade, o grande mérito é da escritora J. K. Rowling que desenvolveu uma trama que foi ganhando em complexidade com o passar dos livros, e em vários aspectos. Aqui, Harry precisa se defrontar definitivamente com Voldemort – e ambos sabem que esse embate é inevitável e mortal para um deles –, buscando destruir as horcruxes, peças malignas nas quais o lorde das trevas depositou partes de sua alma. Por sua vez, o temido vilão só pensa em encontrar e matar Harry definitivamente para consolidar seu poder.


Por conta desse perigo iminente e pela atmosfera constante de medo, tudo no filme é muito sombrio (e, diferente dos demais, por anteceder o confronto final, o perigo ganha uma seriedade maior). Para isso, fotografia e direção de arte criam uma ambientação sufocante, enquanto a trilha sonora de Alexandre Desplat, sempre competente, garante a tensão. Entre as atuações, por mais que seja recheado de grandes nomes, destaque para o Voldemorte de Ralph Fiennes que, se tivesse mais tempo em tela, renderia grandes momentos.

Com cenas de ação mais rápidas, Yates se preocupa mais em desenvolver o percurso dos personagens nessa reta final. O que poderia enfraquecer o filme, acaba sendo uma de sua maiores qualidades, garantindo seu valor entre os demais longas da série. Uma aposta arriscada, mas que prepara bem o caminho para o clímax final.

6 thoughts on “Preparando o terreno

  1. Eu daria pelo menos mais uma estrela aí pro filme. Gostei bastante. E não acho que a narrativa seja apressada, pelo contrário, a opção de dividir o filme em 2 deu ao Yates a possibilidade de desenvolver sua trama com bastante calma, o que torna o filme mesmo contemplativo em alguns momentos. Belo trabalho. Acho que chega ao nível dos melhores exemplares da série até agora (na minha opinião): O Prisioneiro de Azkaban e O Cálice de Fogo.

  2. Sinceramente, eu não gostei deste filme. Achei o roteiro muito arrastado, e a história, para mim, não falou nada, foi uma grande enrolação. Mas, a parte técnica do filme é um deslumbre! E as atuações estão bem melhores.

  3. A série POTTER, tendo deixado as criancices para trás desde a saída de Columbus, segue cada vez mais adulta, competente, espetacular e emocionalmente ressonante. O próximo e último filme vai ser uma catarse para os fãs.

  4. Wallace, dos filmes gosto muito do Cálice de Fogo, que também é o melhor livro da série. Mas, de fato, esse filme desenvolve melhor os personagens, embora eu ache que muita coisa fica mal contada.

    Kamila, também acho os quesitos técnicos muito bons, mas acredito que a história precisava de um desenvolvimento dos personagens, antes do tão esperado confronto final. Mas, mesmo assim, a história continua atropelada demais.

    Gustavo, também acredito na potencial do último filme, e o David Yates surpreendeu ao manter o mesmo nível de maturidade da história que ele meio que iniciou. Aguardemos pelo confronto final.

  5. Harry Potter e as Relíquias da Morte" mostra o apuro total da série que conquistou milhares de fãs no mundo inteiro – até para os não iniciados no mundo da magia, ou viciados nesse contexto da fantasia. É um filme que, finalmente, encontra seu teor de maturidade, numa direção mais central e cuidadosa de Yates – que com a ajuda do roteirista Kloves – consegue condensar todas as principais partes do livro, bem como diálogos. Toda a essência está ali, ao contrário dos anteriores que acabavam por correr demais em certas passagens.

    É realmente admirável ver como o elenco aqui está mais entrosado, ou melhor: Temos um Daniel Radcliffe mais maduro. Rupert Grint e Emma Watson, num mundo mais justo e acolhedor, poderiam ser indicados ao Oscar. Sim, eles têm uma atuação mais emocional, estão realmente bem no filme, há momentos que até impressiona.

    O roteiro consegue fluir bastante, evitando cenas rápidas, explica muito bem certos contextos do filme, é admirável o cuidado em até situações rápidas que no livro parece não ter importancia, mas no filme faz todo o sentido. Eu gostei muito da forma sombria que o filme tem, da maneira "adulto" estampado em cada cena, nos diálogos até reflexivos do trio central. Inclusive, há mais ousadia nesse, até sensualidade em uns contextos, a puberbade mais evidente…e o senso dark, fora do contexto de magia dentro de Hogwarts – iniciado desde "A Ordem da Fenix" aqui atinge seu ápice…

    Diferente mesmo este filme, pois o roteiro não tem partes confusas ou desconexas como muitos trabalhos cinematográficos, adaptados de livros, tendem a demonstrar.

    Gostei dos momentos de Harry – Rony – Hermione.
    Da forma como a mão de Yates priorizou as atuações deles…
    Helena Bonham Carter conseguiu também acertar seu tom como Bellatrix Lestrange, se antes ela parecia meio artificial demais, neste filme assombra demais.

    O que foi aquela parte da animação no meio do filme mesmo? muito bom ter colocado o Conto sendo explicado com uma animação.

    As cenas de ação, ainda que não tão extensas e intensas, são impressionantes e iguais aos do livro. A trilha de Alexandre Desplat, ainda que correta(talvez, a menos inspirada deste compositor que surpreende a todo trabalho), é satisfatória – mas, é verdade, de longe é o ponto mais fraco do filme. A fotografia de Eduardo Serra (admiro ele, já havia feito um belo trabalho no "Moça com Brinco de Pérola")muito boa, dá todo o clima do livro/filme, a forma como o filme usou de referências de outros filmes tambem me agradou.

    Há um clima triste que paira todo, algo meio pessimista, intimista até – de fato, o último livro da saga é o mais denso e pesado, precisava de um filme que fizesse jus a ele. Há momenos emocionais, como a passagem de Dobby…há cenas bem emocionantes mesmo.

    Eu realmente estou admirado com o trabalho deste filme!
    Ao contrário de todos, acho um dos melhores do ano!

    Que venha a parte dois!
    abs

  6. Cristiano, concordo que o filme amadureceu, e até a própria direção, mas não acho que o trio de atores principais esteja tão bom assim. Quer dizer, só a Emma Watson que salva, pelo menos. E continuo achando que o roteiro ainda é um tanto confuso pois adaptou mais da metade do livro, o que deixou muita coisa corrida, problema esse já enfrentado por todos os filmes anteriores da série. Mas é um bom filme, prepara bem o terreno para o confronto final.

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