Por trás do êxito

O público se animou mais nessa terceira noite de mostra. O fato do longa ser um documentário musical ajudou muito nesse sentido, e O Homem que Engarrafava Nuvens é bem bom, assim como os curtas que o antecederam. Primeira noite em que todos os filmes surgem acima da média.

Eletrotorpe (SP/BR, 2008)
Dir: Nalú Beco e Yuri Amaral

Se Eletrotorpe apresenta uma tonalidade de filme moderno, o mesmo não se pode dizer do tom de denúncia que ele pretende expor, aquela que reafirma a torpeza humana, a degradação a que podemos chegar. Mas apesar de não apresentar nada de muito novo, aposta numa estrutura narrativa fragmentada (aquela de “quebra-cabeça”, como em No Meu Lugar) que nos mantém presos à narrativa. Ao mesmo tempo, o filme pretende soar pesado em determinados momentos, mas não parece ter coragem suficiente para isso. O tom cíclico da narrativa, ao apostar num tipo de coincidência geralmente muito frágil, acaba acentuando essa mesma torpeza que pode estar mais próximo de nós do que imaginamos. Às vezes, ele está em nós mesmos.

Bala na Cabeça (MG/BR, 2009)
Dir: Cristiano Abud

Bala na Cabeça é sobre um homem refletindo sobre sua trajetória e seus caminhos tortuosos, num momento bastante crítico, em que sua vida está em jogo. Parece ser, na realidade, o melhor momento para esse olhar de reflexão, apesar da tensão que a trilha sonora (junto a um ótimo trabalho de som) e a montagem imprimem à narrativa. Tudo é muito inconstante. Um dos grandes trunfos do filme é conseguir que, em poucos minutos, seu protagonista faça um autorretrato bastante sincero, acentuando como determinadas atitudes, tomadas no calor da hora, podem nos ser decisivas. A edição ágil não deixa muitas coisas claras, mas é possível perfeitamente acompanhar os vaievéns da história e buscar entender nossas escolhas. Nem que seja a última coisa que façamos.

O Homem que Engarrafava Nuvens (PE/BR, 2009)
Dir: Lírio Ferreira

Mais uma vez nessa mostra um filme desenvolve seu discurso através de um extenso e riquíssimo resgate de imagens. Se na abertura Uma Noite em 67 retomou um dos maiores festivais de música do Brasil, em O Homem que Engarrafava Nuvens esse resgate é ainda mais complexo pois, na busca por fazer conhecer um dos compositores que elevaram a importância e influência do baião na nossa música, fez também um apanhado não só histórico, como também musical. Um legado que nos chega em forma de imagens e (bons) sons.

O filme, na realidade, se equilibra entre essas duas funções: revela a herança que o baião deixou na cultura brasileira e também constrói um retrato sincero sobre um dos maiores nome responsáveis por esse sucesso, o compositor Humberto Teixeira, cuja parceria com Luiz Gonzaga imortalizou canções como Asa Branca e Assum Preto.

Se o sucesso e carisma de Gonzagão acabaram eclipsando o homem por trás da genialidade das letras (dizia-se que, na parceria, ele era a pólvora e Gonzaga o canhão), mas que também se preocupava com a composição musical das obras, sua figura ganha o devido destaque através desse filme dirigido por Lírio Ferreira, com o apoio completo da filha do documentado, a atriz Denise Dummont.

Do primeiro, tem-se uma boa referência nesse tipo de resgate porque seu filme anterior fazia a mesma coisa para trazer à tona o gênio de Cartola. E o fato do filme contar com o total apoio e parceria de uma das filhas de Humberto, não significa parcialidade extrema. Dessa forma, a maestria com que Humberto compunha rivaliza com o retrato de homem machista e conservador, um sertanejo bruto e pouco ligado à família, num filme marcado por uma sinceridade latente.

Não à-toa o filme começa com a busca de Denise por conhecer melhor seu pai, a despeito da fria e pouco amigável relação que os dois mantiveram até a morte dele em 1979. A partir daí, o filme traça um percurso longínquo das fronteiras que o estilo musical conseguiu romper, resgatando muita gente boa da nossa música fazendo belas reverências ao baião. E ao homem que ajudou isso se tornar possível.

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