Os Olhos de Cabul

Outros olhares e novas saídas*

Os Olhos de Cabul, que estava programado para ocupar as salas comerciais nesse primeiro semestre do ano, fica disponível agora no Cinema Virtual junto com filmes diversos. É dirigido pela dupla Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévelle, cineastas que adaptaram para o cinema de animação o romance do escritor argelino que escreve sobre o pseudônimo de Yasmina Khadra, intitulado As Andorinhas de Cabul.

A trama transcorre no duro regime do talibã, numa Cabul em ruínas, controlada pelo poder arbitrário das forças terroristas no país. Ali, as histórias de dois casais se entrecruzam. Numa deles, a bela e jovem Zunaira possui desejos de liberdade, mas tem de ficar em casa onde exercita seus dotes artísticos de pintora – mesmo que nas paredes da casa –, enquanto seu jovem marido vaga com tristeza e desamparo depois de perder o emprego como professor universitário.

Num outro ponto, Atiq vive amargurado com uma esposa que sofre de um câncer sem mais perspectivas de cura. Ele trabalha como carcereiro em uma prisão para mulheres, tendo de se adaptar a uma bruta realidade, de certa forma conivente com o regime e as regras impostas, mas também desgostoso e infeliz com a vida que leva.

As diretoras constroem uma atmosfera de miséria e violência – ou apenas radiografam uma realidade latente do Afeganistão do final dos anos 1990 – muito dura, e é mesmo difícil fugir desse estado de opressão, verdadeira máquina de moer gente. Apesar de abusar da claridade que incide na região do Oriente Médio, usando um traço tradicional de animação, as diretoras não deixam de revelar o que há de sombrio naquele contexto de vida.

Opressão feminina

O lugar das mulheres nessa sociedade parcamente militarizada e ultraconservadora é um ponto fundamental da trama. E o filme se coloca diante de uma dupla condição moral: dar visibilidade às personagens femininas, mas também não pode se privar do retrato de perversidade que persegue as mulheres afegãs, traço que está imbricado à formação sócio-histórica do país.

Logo no início, o marido de Zuniara presencia na rua a execução civil de uma mulher por apedrejamento – e ele mesmo se sente impelido a lançar uma pedra na vítima, algo sobre o qual irá refletir em autocrítica posteriormente. As leis de opressão que incidem sobre as mulheres naquele contexto, portanto, têm a sua dose de misoginia cruel e uma infeliz incidência cultural, apesar dos anseios humanistas de muita gente que claramente é contrária a esse sistema de tirania.

É o caso das inquietações de Zuniara, ela que acaba se envolvendo, por conta de uma estúpida fatalidade, em uma rede perversa de acusações. O filme precisa criar algumas viradas forçadas de roteiro para fazer mover a trama, mas com isso busca questionar os personagens em suas atitudes e opções morais – em especial de Atiq e sua posição diante das injustiças. Os Olhos de Cabul, portanto, está engajado nas lutas humanitárias, mas precisa lidar com uma realidade que perpetua a violências e a morte sobre seus cidadãos.

Os Olhos de Cabul (Les Hirondelles de Kaboul, França/Suíça/Luxemburgo/Mônaco, 2018)
Direção: Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévelle
Roteiro: Zabou Breitman, Yasmina Kadra, Patricia Mortagne e Sébastien Tavel

*Originalmente publicado como parte de matéria do Jornal A Tarde (edição de 31/05/2020)


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