Olhar de criança

Mutum (Idem, Brasil, 2007)
Dir: Sandra Kogut

Desde quando Mutum recebeu o Troféu Redentor de Melhor Filme, prêmio máximo do Festival do Rio ano passado, que minhas expectativas para assistir ao longa só iam aumentando. Fazendo jus à excelente safra de filmes nacionais lançados em 2007, essa estréia da diretora Sandra Kogut na ficção me surpreendeu bastante. Adaptado da obra do escritor mineiro Guimarães Rosa, Mutum é um exemplo claro do quanto de beleza se pode extrair uma narrativa tão naturalista, mas emocionalmente intensa.

Não existe uma trama exata, mas passamos a acompanhar o cotidiano do pequeno Thiago, garoto de 10 anos, e sua humilde família que vive numa região isolada no sertão de Minas Gerais, chamada Mutum. É através de seu olhar inocente que desvendamos o complexo mundo dos adultos, seus conflitos e percalços. Tais dramas atingem o garoto inevitavelmente, obrigando-o a um amadurecimento um tanto precoce.

O roteiro expira uma atmosfera de inocência tamanha que só poderia mesmo fazer parte do universo infantil; as brincadeiras, o teor frágil das conversas e aquelas risadas gostosas que são próprias da alma das crianças. No caso de Thiago, muito dessa inocência é interrompida pela necessidade de lidar com as conseqüências provocadas pelas ações dos adultos (mãe, pai e tio, em potencial, no seu caso). Muitíssimo bem interpretado pelo jovem Thiago da Silva Mariz, o protagonista não tem culpa dos atos de seus familiares, mas mesmo assim sofre os danos de tais atos, tendo que ser “expulso” de seu mundo particular.

Além disso, o texto é de uma sutileza incrível e aposta na sensibilidade do público para conduzir a história, sem nunca cair no exagero (a morte de determinado personagem, por exemplo, é extremamente tocante, mas nunca soa forçada). O filme aposta também na ótima química entre os atores, quase todos desconhecidos do grande público (salvo o sempre ótimo João Miguel interpretando o pai de Thiago) e que possuem uma familiaridade muito grande com o ambiente da fazenda. O elenco foi majoritariamente escolhido entre os moradores das regiões das filmagens.

Com câmera na mão, fotografia natural e privilegiando o som ambiente, com o devido respeito aos silêncios, Kogut transmite leveza ao filme, que não deixa de possuir densidade dramática nos momentos certos. Simples e denso. Complexo e inocente. Acima de tudo.

6 thoughts on “Olhar de criança

  1. Nem demorou tanto pra você assistir, hein? O filme é realmente ótimo – não foi por acaso que Carmem saiu chorando do cinema hahaha. Mas, enfim, o filme é delicioso de ver, com tendência a ser simples, mas profundo. A narrativa é muito boa, a fotografia é incrível, a atuação daquele guri é impressionante.
    Uma das cenas que mais me marcou foi aquela do menino tentando ensinar o papagaio a falar o nome do outro garoto.
    Um excelente filme

  2. Tõ muito curioso, pena que só vou vê-lo em dvd por sua exibição ter sido tão curta.

    Dirigir crianças é um trabalho difícil, o que me deixa ainda mais curioso a respeito do trabalho de Sandra Kogut.

    Gustavo Madruga

  3. Pois é Iulo, o filme já tinha estreado aqui em Salvador faz um tempo, quase que eu perco. E não foi só Carmen que saiu chorando do cinema não, com um filme desse é difil se segurar. Bela dica, viu! Valeu!

    E pra galera que ainda não viu, realmente essa é um ótima oportunidade (viu Johnny) de pretigiar um cinema brasileiro fora dos padrões atuais. Vale muito a pena.

    Gustavo, acredito que foram mais de mil crianças fazendo teste para ficar com o papel. E a direção do elenco mirim é ótima, mas é de uma naturalidade tão grande que não é preciso nem tanto esforço.

    Abraço pessoal!!!

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