O outro lado do espelho

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (The Imaginarium of Dr. Parnassus, Reino Unido/França/Canadá, 2009)
Dir: Terry Gilliam


O cinema de Terry Gilliam possui uma incursão muito oportuna ao fantástico pelo simples fato de que o cineasta parece acreditar no poder da fantasia. Uma pena que seus trabalhos pequem pelo cansaço e exagero, com histórias sempre engessadas a uma necessidade de ser over, excessivo. Um de seus filmes mais festejados, Brasil – O Filme, é justamente o que apresenta essas características em grau mais elevado e que, a despeito de compor um estilo bastante peculiar, nunca conseguiu me convencer de fato, assim como os outros projetos do cineasta.

Terry Gilliam sempre me dá essa impressão de estar se divertindo à beça com seus filmes, construindo mundos paralelos, personagens tresloucados, utilizando um monte de parafernália em seus cenários, mas se importando de menos com seus personagens, daí um desenvolvimento narrativo comprometido. Esse é bem o caso desse O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus, que ainda ganhou nos efeitos especiais computadorizados mais chances para que Gilliam solte sua imaginação.

Paralelo a isso, a morte precoce de Heath Ledger parece ter prejudicado o filme não só na necessidade de se encontrar uma forma de substituí-lo (que teve na utilização de três outros (bons) atores um recurso vazio e sem propósito), mas também na atenção que passou a ter, embora seja um coadjuvante na história.

Nosso verdadeiro protagonista é o Parnassus do título, vivido por um disposto Christopher Plummer, que mantém uma trupe circense de rua apresentando um espetáculo que ninguém dá atenção. Detalhe para o fato de o protagonista ter mais de mil anos por conta de um acordo feito com o diabo, que vez por outra aparece para mais uma aposta. Mas eis que surge no caminho um homem misterioso (Ledger), desmemoriado, que vai dar um charme a mais à apresentação.

É quando entra no filme outra característica que emperra o cinema de Gilliam: a vontade de fazer crítica social, de expor e denunciar mazelas, no caso desse filme, o tráfico de crianças órfãs. Forçado seria quase o termo adequado para identificar a aparição desse subtexto “sério” em meio ao tom lúdico, mas quase não chega a isso porque em determinado momento se apresenta como um mero detalhe de roteiro.

Contando com uma série de personagens interessantíssimos, o filme parece não saber o que fazer com cada um, apesar do bom time de atores. Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, os substitutos de Ledger, não acrescentam muita coisa à narrativa, que tem seus pontos positivos na direção de arte e nos figurinos. Pelo visto, apuro visual é mais valorizado do que a própria história nesse mundo caótico de Terry Gilliam.

6 thoughts on “O outro lado do espelho

  1. Achei a solução para a morte de Heath Ledger bastante interessante, chegou certo ponto do filme em que o roteiro parecia um queijo suíço de tantos buracos, mas entendo que é por causa de sua morte. Portanto preferi não julga-lo neste ponto. Não acho o filme engessado, talvez agora que você tenha apontado eu note mais isso. Tento não levar Terry Gilliam a sério, e viajar junto ao seu imaginário, tanto nesse filme como no, Os Irmãos Grimm.

  2. Esse é um problema que também vejo no Gilliam, apesar de gostar bastante de BRAZIL. É um cineasta que está sempre próximo de realizar grandes filmes, mas raramente chega lá. Digo isso me baseando em obras como, além de BRAZIL, OS IRMÃOS GRIMM e OS 12 MACACOS. Acho que esses foram os únicos trabalhos do diretor que assisti (para além do MONTY PYTHON, é claro).

  3. "O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus" é aquele tipo de filme que ultrapassa o meu limite de aceitação em relação à imaginação… Consegui curtir até certo ponto, mas, depois, o filme ficou maluco demais para o meu gosto.

  4. Jumaffia, não sei se os furos do roteiro se deviam por conta da morte do Ledger, acho que as histórias do Gilliams que se embaralham demais a ponto desses furos serem bem perceptíveis. E juro pra você que tento viajar nos fimes do cara, mas tem sido cada vez mais difícil.

    Wallace, Brazil, para mim, é o pior filme dele, dos que eu vi. Não consigo embarcar nas viagens dele. E é uma pena, pois o cinema fantástico podia encontrar nele um grande defensor, mas acho que ele exagera demais em suas criações, e aí a coisa vai despencando.

    Matheus, essa é a impressão geral que tenho dos filmes do Gilliam, parece que o cara não consegue se conter, daí a experiência do filme acaba se tornando pouco prazerosa. Uma pena.

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