O fim e o princípio

O Curioso Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button, EUA, 2008)
Dir: David Fincher


A nova produção de David Fincher é um filme correto e apesar das quase três horas de duração, transcorre muito bem, devido a um roteiro ágil e fácil, e também hábil em esconder alguns furos e imperfeições da narrativa. Mesmo assim, o filme dá a impressão de história bem contada, e apesar da originalidade do argumento, é na verdade um belo conto de amor. Caiu nas graças da Academia de Hollywood e é o líder de indicações ao Oscar 2009.

Acompanhamos toda a vida de Benjamin Button (Brad Pitt) desde o seu nascimento, com o único diferencial de que ele veio ao mundo com a aparência de um velho de 80 anos de idade, e com o passar do tempo vai rejuvenescendo. Ao nascer, é rejeitado pelo pai e acaba sendo criado pela negra Queenie (Taraji P. Henson) num asilo. Lá ele conhecerá, ainda em menina, a bela Daisy (Cate Blanchet), o amor de sua vida. O roteiro, com tom fantástico, é baseado no conto homônimo de F. Scott Fitzgerald.

O filme todo é narrado em flashback a partir do diário de Benjamin, lido pela filha de Daisy, que se encontra no leito de morte num quarto de hospital. A trajetória peculiar desse homem encontra problemas na sua inadequação diante do amor por uma pessoa que envelhece enquanto ele faz o percurso contrário. Há também por todo o filme reflexões sobre o morrer e é interessante notar que mesmo Benjamin estando rejuvenescendo, ele está também morrendo, como qualquer um.

No entanto, o roteiro talvez escorregue por buscar sempre emocionar o espectador, embora isso nunca soe forçado, mas insistente. Daí surge a relação de afetividade entre Benjamin e Queenie, a amizade com os velhinhos do asilo (que o aproxima ainda mais da persistência da morte), os encontros e desencontros com Daisy, o reaparecimento do pai, a questão da paternidade, etc. Mas convenhamos que na parte final o filme dê uma forçada no que diz respeito à partida de Benjamin (e seu descabido retorno) e na muito previsível descoberta feita pela filha de Daisy. E me pareceu muito desnecessário atualizar o texto ao incluir momentos prévios ao desastre do furacão Katrina sobre Nova Orleans.

O já conhecido virtuosismo técnico de David Fincher se minimiza aqui em prol de uma narrativa mais fluida (algo realizado soberbamente em Zodíaco), mas mesmo assim muitos quesitos merecem destaque, a começar por um trabalho de maquiagem perfeito: desde a incrível criação de um bebê com aparência de um idoso, às transformações constantes do corpo de Brad Pitt e o envelhecimento de uma quase irreconhecível Cate Blanchett. O trabalho de fotografia cria momentos de pura beleza (sua principal função aqui), enquanto a passagem dos anos ganha bastante eficiência por uma direção de arte caprichada e figurinos estilizados, mas nada exagerados.

Numa cena magnífica, o filme revela como uma pequena mudança nas atitudes interligadas de diversas pessoas pode provocar conseqüências desastrosas (nesse caso, um atropelamento), ao sabor do puro acaso. Nesse sentido, o filme aponta para a responsabilidade de nossos atos, o destino de nossas vidas que também interfere em outros destinos, e mesmo que você viva sua vida de trás para frente, não deve fugir desse encargo.

11 thoughts on “O fim e o princípio

  1. Rafael, acho que seu texto define bem o filme, e o que quase todo mundo vem achando dele, inclusive eu: é um belo filme, mas que, vindo de Fincher, deveria ser melhor.
    Acho que, se o diretor tivesse se focado mais na sua trama, e se preocupado menos em criar um filme grandioso, Benjamin Button poderia ser uma obra-prima. Acho, por exemplo, as cenas no presente completamente dispensáveis …

  2. Belo texto, Rafael! Ainda não vi o filme, não está nas minhas prioridades, mas o argumento é sem dúvida sensacional. Justamente por inverter a a lei natural do envelhecimento e tocar fundo na questão da passagem implacável do tempo – tema também abordado em “O mal-estar na civilização”, de Freud.

    Abs!

  3. Cara da Locadora, se o filme permite uma análise assim, cabe à gente chegar a essas conclusões. As minhas foram bem modestas, na realidade.

    Pois é Wallace, e isso não é nenhum demérito para o Fincher. Depois de excelentes obras, ele só não pode fazer um filme medíocre, mas não precisa ser nenhuma obra-prima. Muita coisa em Benjamin é descartável mesmo, como as cenas do presente que você citou, sei que o conto do Fitzgerald foi bem aumentado.

    Dudu, o argumento do filme foi o que logo me chamou a atenção, e mesmo não sendo um filmaço, vale a pena sim ir ver no cinema. E essa coisa de abordar a implacável passagem do tempo é mais mérito do Fitzgerald.

    Diego, brigadão pelo selo. Vou postar hoje meus “indicados”. E vi lá no seu espaço que tu gostou muitíssimo de Benjamin Button. É um filme bastante correto, como eu disse, mas tá longe dos melhores filmes do Fincher.

  4. Ei Rafa!!! prazer imenso ter visto esse filme contigo, caríssimo! heh
    bom, só vou oficializar o comentário que fiz pessoalmente.. hehe

    achei o filme de uma beleza sem igual… a serenidade, a simplicidade e a generosidade que Pitt deu ao personagem criou em nós um carinho todo expontâneo pelo “pequeno-vovô”..
    a questão da morte tbm é tratada com muita naturalidade, se pensarmos que benjamin “cresceu” rodeado pela “morte” e se acostumou a perder coisas e pessoas ao longo de sua vida…
    o jeito q ele morre tbm é muito legal!

    aqui, rafa.. li no A Tarde um texto q dizia q o diretor tirou o foco de humor do livro e q isso trouxe prejuízo à trama… depois te passo esse texto..
    bjus!

    posta logo 7 vidas p eu comentar!!! hehehehe

  5. O prazer foi meu, Flavinha, em revê-lo ao seu lado (só não gostei daquele comentário seu na metade do filme). Então, vendo pela segunda vez deu pra confirmar como o filme transcorre serenamente o tempo todo, e por mais que já tinha visto, já sabia a história, não o senti cansativo. Isso prova o quanto o filme é bom.

    Como eu não li o conto do Fitzgerald, não sei dizer como isso prejudicou a obra. Na verdade, não prejudicou nada porque me parece uma escolha prezar mais para o drama; é uma escolha da adaptação. Não senti falta. Quero ver esses Cadernos 2 que você tem aí, viu! Bjs!!!

  6. Li o conto do Fitzgerald: o filme não tem nada a ver, a não ser pela premissa do personagem que nasce velho e vai rejuvenescendo. Aliás, acho que a mudança é tanta que o roteiro deveria ser catalogado como original. Há um livro de um escritor americano (As confissões de Max Tivoli) que guarda mais semelhanças com o filme de Fincher do que o conto de Fitzgerald.

    Abração

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