O Caso Richard Jewell

O tema do herói ordinário tem ganhado centralidade na obra recente de Clint Eastwood e por isso não é difícil entender o interesse do diretor pela história de Richard Jewell, o segurança que identificou uma bomba nos festejos das Olimpíadas de 1998, nos Estados Unidos, e impediu um desastre maior ao isolar os arredores. Alguns desses filmes lidam diretamente com a moralidade dos personagens (o recente A Mula, Sniper Americano), outros buscam valorizar os atos de nobreza de seus protagonistas (15h17: Trem para Paris e Sully: O Herói do Rio Hudson), mas todos eles convergem para a discussão sobre o homem americano contemporâneo e seus dilemas de honra e virtude segundo as leis morais da América.

Não seria arriscado dizer que este é um reflexo do pós-11 de setembro, mesmo que a trama de O Caso de Richard Jewell se passe antes disso. Porém, produzido hoje, o filme não deixa de espelhar um anseio em evidenciar as virtudes morais do protagonista, mesmo contra todas as contradições que há nele, que não são poucas. Abertamente ligado à ala conservadora no cenário político, Eastwood trafega por esse campo da polidez e da defesa de certos ideais de equidade individual, ainda que não ignore as complexidades internas de cada um (embora nem sempre consiga equilibrar bem tais contradições, como em 15h17: Trem para Paris, por exemplo, cujos protagonistas são bem pouco tridimensionados).

Eastwood, no entanto, dá um passo adiante aqui (algo semelhante ao que ele já havia feito em Sully) porque vai investigar também a tentativa de desconstrução desse heroísmo: Jewell passa a ser investigado pelo FBI como suspeito por plantar a bomba, já que os culpados não são identificados; sua vida pessoal vira pelo avesso como um circo de escândalo público que facilmente ganha repercussão midiática. Curioso notar que são as próprias forças do Estado americano que fecha o cerco contra o cidadão, tendo de provar sua inocência (o que remete ao tema do “homem errado” lá do Hitchcock).

Mas certamente o grande trunfo que o diretor tem nas mãos aqui é seu protagonista porque Jewel é um personagem fascinante. Vivido pelo pouco conhecido (e excelente) ator Paul Walter Hauser, Jewell é ele mesmo um patriota convicto, imbuído de elevado espírito cívico e de defesa do seu país, acima de tudo. É também um personagem de perfil facilmente “caricaturizável” (acima do peso, de baixa escolaridade, solteirão e filho único que vive sozinho com a mãe viúva). Sempre quis ser policial, apesar de pular de subemprego em subemprego, e é amante das armas de fogo.

Na mira das poderosas instituições americanas (não só as forças da segurança policial, mas também da mídia sensacionalista, o que rende ao filme a personagem, essa sim, super caricata da jornalista vivida por Olivia Wilde) e lidando com seu jogo sujo, Jewell recorre a sua inocência e probidade, ao lado do advogado vivido por Sam Rockwell, enquanto as pequenas atitudes e certos erros do passado são explorados contra ele mesmo.

O roteiro assinado por Billy Ray, no entanto, escapa de qualquer pieguismo ou síndrome de “coitadismo”, talvez no roteiro mais depurado que Eastwood dirigiu nos últimos anos (se não fosse o exagero na representação da jornalista inescrupulosa, certamente teríamos uma pérola maior). Nem mesmo quando a mãe de Jewell (uma ótima atuação de Kathy Bates) faz um discurso emocionado sobre a inocência de seu filho, o filme abraça o tom mais emocional de forma gratuita. O tratamento do melodrama aqui é uma ótima surpresa, muito por conta do que o personagem consegue angariar de genuína inocência, um homem de boas intenções.

Ao mesmo tempo, outra qualidade que reforça a consistência dramática da trama e o conceito da defesa do heroísmo, os pequenos heróis anônimos, é que Eastwood foge do mistério. Ele não está interessado em questionar ou duvidar de Jewell – ele já é uma fonte de complexidade por si só –, muito menos de plantar o enigma sobre as origens do atentado – sabemos de pronto que Jewell fez de tudo para promover a segurança e salvar as pessoas. Está tudo às claras, o que é genuíno e o que é inescrupuloso. Nesse sentido, o filme questiona as instituições sociais que tentam destruir a imagem do homem comum e sustenta até o fim a dignidade de seu protagonista. E esse é o gesto mais nobre de um cineasta para com seus personagens.

O Caso Richard Jewell (Richard Jewell, EUA, 2019)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Billy Ray

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