Nomadland

Vida em movimento*

Desde que venceu o Leão de Ouro no Festival de Veneza, em 2020, Nomadland tornou-se o franco favorito para o Oscar deste ano. Sabia-se que muita coisa ainda viria a estrear, mas o não arrefecimento da pandemia impediu o lançamento de muitas obras e mesmo os que surgiram na corrida não conseguiram apagar a força do longa da diretora Chloé Zhao. Resultado: seis indicações ao Oscar, três vitórias, incluindo o prêmio máximo.

O filme já havia estreado nos cinemas brasileiros há pouco tempo e agora chega à capital baiana na fase atual de reabertura das salas que começou neste fim de semana. Para quem se sente seguro em ir aos cinemas, é a chance de ver em tela grande a beleza das paisagens filmadas por Zhao, mas também entrar em contato com a melancolia e a rudeza da vida de Fern (Frances McDormand).

A atriz, que também é a produtora do filme, vive uma personagem que trafega entre a ficção e a realidade de muitos estadunidenses que moram em vans ou motorhomes e percorrem os Estados Unidos em busca de empregos temporários. São os chamados nômades modernos.

No caso de Fern, ela vivia numa casa que pertencia à empresa em que ela e o marido trabalhavam. Com a falência da companhia, todos os funcionários tiveram que abandonar suas moradias e procurar novos trabalhos – a pequena cidade onde eles passaram a viver simplesmente desapareceu. Agora viúva, aos 60 anos, Fern precisa se reinventar e seguir vivendo, sem casa, longe da família e dona apenas de sua van e alguns pertences pessoais.

Com isso, Nomadland radiografa uma nova classe baixa norte-americana que vive com muito pouco, sem assistência social e acostumada com a uberização do trabalho nesta fase cruel do neoliberalismo econômico predador. Ao mesmo tempo, e apesar da solidão inerente que faz parte da rotina de Fern, o filme também consegue apontar para a rede de amizades e solidariedades que existem entre esses indivíduos espalhados pelo país.

Eles são muitos e chegam mesmo a se reunir em encontros regulares, capitaneados por Bob Wells, uma espécie de guru dos nômades americanos. Ali, Fern faz amizade com Swankie e Linda May na medida em que seus caminhos se cruzam, embora cada uma siga sua vida independentemente. Surge também um possível interesse amoroso, no personagem interpretado por David Strathairn.

Esteira autoral

Para além de uma visão crítica da sociedade norte-americana e do mundo do trabalho, Nomadland também oferece uma narrativa que, se é facilmente reconhecível no atual cinema brasileiro, soa um tanto incomum no cenário norte-americano e hollywoodiano: o intercâmbio entre ficção e documentário.

Fern é uma personagem ficcional, mas interage no filme com uma série de indivíduos que estão interpretando a si mesmos (como é o caso de Swankie, Linda May e Bob Wells). Ela de fato entra em contato com esse grupo de pessoas que vive como nômades, têm uma vida minimalista e, sem muitos recursos, passam a trabalhar em temporadas nos mais variados lugares.

O filme constrói-se, assim, apostando no naturalismo das situações e no registro mais documental possível, uma vez que se trata de uma realidade latente nos Estados Unidos de hoje. McDormand e a equipe do filme entram, por exemplo, em um centro de distribuição da Amazon onde sua personagem e Linda May encontram um trabalho temporário como empacotadoras. Ali elas interagem com outros funcionários de forma a mais natural possível.

Esse tipo de narrativa, no entanto, não é nada estranha dentro do percurso da diretora Chloé Zhao – nascida na China, mas hoje radicada nos Estados Unidos. Os dois filmes anteriores da cineasta trafegam por esse mesmo tipo de paisagem menos urbana e sempre imbricados entre o documental e o ficcional.

Seu primeiro longa, Songs My Brothers Taught Me, acompanha uma família que vive em uma área de preservação indígena, enquanto em Domando o Destino o foco está na vida de um rapaz que sonha em ser cowboy; em todos eles, os personagens interpretam versões de si mesmo nos filmes.

Trata-se, portanto, de um caminho marcadamente autoral uma vez que seus filmes formam um conjunto muito coeso e dotado de personalidade cinematográfica bastante coerente. É bem raro ver uma cineasta com tão poucos filmes na carreira conseguir desenvolver tão cedo um olhar muito próprio e aguçado para a realidade do qual ela é também estrangeira. Mais louvável ainda é vê-la neste lugar de prestígio dentro da indústria norte-americana.

Reconhecimento

Mais que merecido, portanto, é o Oscar de direção que Zhao levou para casa. Não havia muita dúvida de que o prêmio seria dela e é de fato um trabalho único a ganhar projeção no mainstream do cinema. Ela se torna a segunda mulher a vencer o Oscar de direção (antecedida por Kathryn Bigelow por Guerra ao Terror) e a primeira asiática a conquistar tal feito.

Quem também fez história foi Frances McDormand que acabou ganhando seu terceiro Oscar de Melhor Atriz em uma das categorias mais concorridas deste ano. É realmente impressionante a maneira como ela abraça uma personagem que interage com pessoas reais, vivendo a si mesmas, ou dentro de um contexto no qual estão imersas. Grande parte da força do filme vem dessa presença que nunca descola da realidade circundante.

Mas um ponto a se destacar em Nomadland é que, apesar do tom melancólico – a fotografia assinada por Joshua Richards é repleta de cenas bucólicas da paisagem do meio oeste americano –, o filme nunca se rende ao sentimentalismo ou a uma romantização do estilo de vida nômade. Há muito mais um tom de respeito e reverência a quem se lança nessa jornada árdua, muito solitária, mas repleta de dignidade frente às desigualdades de um dos países mais ricos e poderosos do planeta.

Nomadland (EUA/Alemanha, 2020)
Direção: Chloé Zhao
Roteiro: Chloé Zhao

*Publicado originalmente no Jornal A Tarde (edição de 16/05/2021)

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