Mostra SP: Sr. Bachmann e Seus Alunos

Dieter Bachmann possui um método muito humanista de lidar com seus alunos no colégio em que ensina. Na cidade alemã de Stadtallendorf, ele tem muitos estudantes de origem estrangeira que formam um caldeirão cultural diverso e multiétnico, muitos deles cuja família vive situações difíceis em termos de emprego e permanência na Alemanha. A Europa dos migrantes se observa naquele microcosmo que é a sala de aula nada convencional do professor de meia idade. Porém, se há uma dimensão política inerente e inquestionável aí, não é necessariamente ela que parece atrair, de antemão, a atenção da diretora Maria Speth.

Sr. Bachmann e Seus Alunos trabalha no registro do cinema documental direto, observando o dia a dia da sala de aula e as abordagens que Bachmann utiliza para ensinar as disciplinas tradicionais a seus alunos (matemática, alemão, biologia) e outras não tradicionais assim, como as aulas de música feitas quase como intervalos em que todos podem se divertir, cantar e tocar e, de quebra, receber umas lições de humanismo e empatia inseridas no cotidiano da classe na medida em que precisa, vez ou outra, resolver pequenos conflitos instaurados entre os estudantes.

Mas Maria Speth não é Frederick Weiseman. A comparação pode ser injusta porque o diretor norte-americano possui uma longeva carreira no documentário e um projeto de cinema muito sólido nessa investigação do documentário direto (com especial predileção por espaços e aquilo que os ronda). Speth, por sua vez, está interessada em investigar a relação mais intimista que se dá entre mestre e discípulos, e não se sai nada mal nessa incursão. Ela consegue cadenciar um filme com 3h30 de duração porque os personagens são muito bons, não apenas o sr. Bachmann e seus métodos nada convencionais (mas também nem um pouco estapafúrdios), como também os são aqueles jovens por quem nos afeiçoamos no decorrer do filme – e que encontram no professor um acolhimento para muitos mais que bem-vindo.

Nesse sentido, a diretora está mais perto de um filme como o documentário francês Ser e Ter, de Nicolas Philibert, que faz praticamente o mesmo gesto, só que numa classe de crianças menores e não de adolescentes como aqui. Os dois filmes se aproximam pela maneira como dão a ver o processo através do qual um professor consegue transmitir certos preceitos para os alunos (e talvez no longa francês a coisa ganha explicações mais verbalizadas), e que, de alguma forma, é mais do que apenas ensinar algo a um estudante. O Sr. Bachmann, ao final do ano, quando chega a hora de distribuir os boletins para os alunos, chega a dizer que aquilo é apenas um resultado passageiro do que eles fizeram, mas que aquelas notas não os definem.

Da mesma forma que esse tipo de entendimento sobre o valor do aprendizado humanitário revela-se no filme de modo muito diluído no conjunto das cenas – apesar de algumas indicarem mais diretamente atitudes diferenciadas do professor –, o próprio dispositivo da observação direta ajuda a não alardeá-lo, assim como o próprio Bachmann, na sua postura exemplar, nunca é endeusado pelo filme.

O material humano que Speth tem em mãos é realmente muito bom. O filme possui um substrato bastante pertinente em termos de discussão sobre os caminhos, erros e acertos do processo educacional – posto aqui a partir de um contexto muito específico, mas revelador de muitas potencialidades da Educação. Porém, em alguma medida, o filme não consegue escapar de uma construção redundante nas suas colocações temáticas, naquilo que ele consegue dizer e nos fazer induzir a partir do que filma e das atitudes registradas naquele ambiente escolar, ainda que seja muito agradável acompanhar toda aquela rotina que se estende pelo curso de um ano letivo. Também existem conflitos que se insinuam entre os alunos que nem sempre o filme consegue acompanhar a contento na sua complexidade, apenas sugeridos. De qualquer forma, está mais do que registrado o poder transformador da afeição num ambiente nem sempre tão receptivo como a sala de aula.

Sr. Bachmann e Seus Alunos (Herr Bachmann und Seine Klasse, Alemanha, 2021)
Direção: Maria Speth
Roteiro: Maria Speth e Reinhold Vorschneider

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