Mostra SP: Pai

Se um tal cinema da crueldades anda mostrando suas garras por aí, selecionado para grandes festivais e angariando prêmio importantes – nesta edição Mostra SP teve como expoentes filmes como Nova Ordem e Fábulas Ruins –, um antídoto contra isso parece se desenhar num filme sérvio pouco visto dentro da programação: Pai, longa dirigido por Srdan Golubović. O personagem do título é um homem obrigado pelo serviço social a se afastar dos filhos depois que a mãe comete um ato insano; mesmo tendo pouquíssimos recursos, ele vai fazer de tudo para reaver a guarda das crianças.

É evidente desde o desenho dessa linha de sinopse que esse sujeito vai penar na sua trajetória de tentar provar que é capaz de cuidar dos próprios filhos, mesmo em condições paupérrimas de vida. Numa vila rural do interior do país, Nikola (Goran Bogdan) trabalha numa madeireira e mora em uma casa simples, cercada por vizinhos que compartilham as mesmas condições de vida e certa dignidade de assim sobreviver – algo que será posto à prova nos minutos finais do longa.

E quando se diz que o filme representa essa cura contra um cinema do choque e da violência gratuita, isso não significa que o filme trabalhe numa chave oposta a isso. Contra a crueldade não basta a pura bondade ou a compaixão desmedida, mas o filme sérvio mostra que é possível encontrar decência nos atos humanos, o que não impede o personagem de esbarrar na vilania e na dureza da vida e das circunstâncias a partir do calvário que o pai empreende para reaver os filhos.

Se o mundo já é cruel com o personagem, o filme percebe que não precisa lhe infligir mais dor e sofrimento para além daquilo que já está desenhado nas duras circunstâncias em que o protagonista se encontra. E isso não impede Pai de ser um filme áspero, muito menos de colocar o personagem sob determinadas situações de opressão e humilhação – ele é visto como um pobretão, ignorante e sem estudos, que tenta conseguir a guarda dos filhos de forma ingênua e pouco inteligente. A diferença é que o filme não precisa martelar na cabeça do espectador tal dimensão de tirania que recai sobre o personagem, fazendo o contrário disso: mostra como ele encontra no caminho pessoas dispostas a ajudar, a lhe fazer o bem ou contribuir para sua caminhada.

Trata-se de um equilíbrio difícil de conseguir, e o filme acrescenta camadas muito críveis nesse desenho entre bons e maus sujeitos, entre atitudes que são benevolentes, mas que estão próximas de outras que podem ser maldosas também – uma conversa que Nikola vai travar com um funcionário do Estado na parte final do filme é bastante sintomática disso porque há no seu interlocutor um mesmo tanto de oportunismo e também vontade de ajudar, dentro de suas possibilidades. Nikola enfrenta a burocracia da máquina estatal e também a sordidez humana, bem como o outro lado da moeda, a filantropia e a compaixão.

O filme parece entender também que a empatia do espectador pelo protagonista já está selada desde o início da trama, e é claro que torceremos por ele no decorrer das situações, uma vez que ele demonstra ser um homem bom, nutrido de um intuito dos mais nobres que é o de reunir a família – por isso a sequência que envolve um cachorro é bastante desnecessário no filme, apelativa mesmo. Mas acima de tudo, Pai parece entender e demonstrar que a bondade e a maldade são dados do mundo, constituem as pessoas e se apresentam nas situações mais impensáveis. O filme reforça principalmente que, no fundo, é preciso estar ao lado da dignidade humana.

Pai (Otac, Sérvia/França/Eslovênia/Croácia/Bósnia e Herzegovina, 2020)
Direção: Srdan Golubović
Roteiro: Srdan Golubović, Srdjan Koljevic e Ognjen Svilicic

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