Mostra SP: Nova Ordem

Nova Ordem começa com flashs de cenas distintas, meio que um resumo do que será o todo do filme, mas destaca uma pintura colorida e abstrata (Guernica feelings) que logo depois veremos ocupar a parede da sala da família burguesa Novello. A imagem prenuncia carnificina, e no mundo exterior abalos sociais são sentidos nas ruas como manifestação popular que não pode resultar nada bem. No entanto, os Novello estão muito ocupados, encastelados em sua mansão para receber os convidados de uma festa.

Nova Ordem começa muito bem ao estabelecer tensões de classe pontuais e bem dosadas entre a família burguesa que festeja o casamento da filha (ou festeja a própria vida de privilégios e ostentação), de um lado, e os empregados e ex-empregados que orbitam por ali. A situação e as movimentações geradas em boa parte dos primeiros vinte minutos de filme, por conta do pedido de dinheiro de um desses antigos empregados no meio da festa (sua filha está hospitalizada e precisa de dinheiro para pagar por uma cirurgia de urgência), são muito reveladoras desse estudo de classes, ao mesmo tempo em que o filme aproveita para passear pelos personagens e captar nuances morais que os tornam mais heterogêneos. Nesses momentos, o filme consegue ser minucioso e fazer uma série de comentários pontuais apenas movimentando a câmera em meio a todas aquelas pessoas e encontrando situações e comportamentos que dizem muito sobre elas mesmas ou sobre seus padrões de classe.

Mas parecia pouco demais para o cineasta que quer a todo custo ser elevado ao título de “provocador”. Franco parte dos abalos sociopolíticos recém-instaurados – e que justificam o título do filme -, um misto de matança e crítica às arbitrariedades das forças militares, para revirar do avesso os rumos da trama e alcançar um patamar macro de comentário político. Para não entregar pontos importantes de virada, basta dizer que o filme ficcionaliza uma tomada de poder que ilustra bem um passado comum na América Latina e as insurgências desesperadas dos grupos militares, mas com o detalhe de que, agora, ninguém mais, pobres ou ricos, estão a salvo das forças de repressão, controle e ordem.

Com isso, o cineasta aproveita para filmar sofrimentos, mortes e torturas com um tom quase laudatório, como estética de puro choque, e parece angariar para si uma “autopermissão” porque está fazendo sofrer os ricos e a burguesia mais escrota, como a dizer que se eles são podres, desgraça pouca é bobagem. A bem dizer, os populares também sofrem e perecem no caminho, mas as imagens gráficas desse sofrimento passam pontualmente na trama, enquanto o calvário dos burgueses é acentuado aqui.

Franco acaba por exercitar o que sabe e se regozija fazendo de melhor: seu cinema de crueldades e sem concessões, com aquele comichãozinho louco de assumir o posto maior de enfant terrible e cineasta provocador high top do circuito de festivais de arte. Nova Ordem tem todos os elementos para soar “forte”, “para estômagos fortes”, mas abdica de um substrato humano que estava no desenho de personagens que ele criou e movimentou no início da trama. Porém, seria ingenuidade dizer que se esperava algo muito diferente disso vindo do diretor do indigesto Depois de Lúcia e do gratuito As Filhas de Abril. Franco está imbuído desse desejo de fazer um cinema com intuídos claros de comoção através do choque e do registro mais cru da violência, sem preocupação em construir nuances nos personagens ou mais consistência nos enredos. É o tipo de cineasta que filma o sofrimento e parece se satisfazer com isso, sem a intenção de ressignificá-lo ou dimensioná-lo dentro de uma dada situação social.

Em Nova Ordem, todo aquele cenário que se desenha com vigor e em crescente estado de opressão é descontextualizo na trama, o que lhe permite alcançar apenas uma carga simbólica de certo estado de coisas, mas que não passa da superfície a vislumbrar atos de violência e autoridade antidemocrática. Assim, o filme só é capaz de fazer um comentário muito banal sobre os riscos das (auto)instituições de poder, e já sabemos muito bem em que isso pode resultar.

Nova Ordem (Nuevo Orden, México/França, 2020)
Direção: Michel Franco
Roteiro: Michel Franco

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Arquivos