Mostra SP: No Táxi do Jack

Em uma determinada cena de No Táxi do Jack, enquanto o personagem está contando uma de suas muitas histórias de taxista vividas nas ruas de Nova York, o filme parece retornar àquela paisagem in loco, mas aos poucos a câmera se afasta para revelar a construção cênica: um carro num estúdio com fundo verde para recriar digitalmente as ruas da cidade norte-americana. O artifício está posto. Mas a diretora Susana Nobre esconde outros truques, especialmente na concepção dessa história entre a ficção e o documentário.

Pois o Jack do filme é vivido por Joaquim Calçada e inspirado em sua vida como imigrante português nos Estados Unidos. Dentre muitas profissões, lhe marcou e lhe deu muito sustento a vida de taxista. Pois é essa trajetória que se torna matéria-prima para o longa de Nobre. No Táxi do Jack encontra o personagem de volta a Portugal, desempregado e tentando se manter como pode. Começa o filme descobrindo que precisa peregrinar entre as agências de emprego coletando carimbos de recusa para poder dar entrada na sua aposentadoria. Enquanto isso, ele rememora. O filme explora as memórias americanas do personagem, suas muitas histórias guiando nas movimentadas ruas do Queens, enquanto ele trafega pela paisagem de uma Portugal contemporânea.

Topetudo, com pinta de Elvis Presley, Jack/Joaquim é um personagem e tanto, embalado no filme com aquela melancolia portuguesa (menos como traço cultural do país e mais como reflexo político de uma Portugal envelhecida e de um personagem caído nas garras de um país difícil para os desempregados) enquanto mantém a sua dignidade, seus amigos e muitas memórias. O filme consegue manter o interesse nesse homem até certo ponto – quando ele está descortinando diante da câmera seus anseios, frustrações e os detalhes da sua rotina, ainda que muito ancorado no texto em off. Mas em determinado momento na segunda metade do filme, fica mais flagrante que a aparência documental da trama se vende como uma ficção com poucos atributos para tanto.

O gesto é mesmo muito pertinente porque o filme se faz de uma imagem construída sobre ele através de outros sujeitos. No entanto, essa estrutura exige que o personagem possa sustentar a narrativa com mais força e invenção. Há um momento saboroso em que o filme simula uma situação digna de um filme policial norte-americano dos anos 1970 quando Jack vai atrás de um sujeito que lhe deve uma enorme soma de dinheiro – o final dessa anedota demonstra que Jack não está mesmo para brincadeira. Mas esse é um chiste quase que solitário utilizado pelo filme como artifício ficcional que funciona muito dentro da lógica do universo que se cria ao redor dele. O filme, porém, explora muito pouco tais possibilidades narrativas, daí que sua investida na ficção, mesmo que permeada pela vida real do personagem, enfraquece a fruição da trama e torna o filme menos interessante do quando ele começa.

No Táxi do Jack (Portugal, 2021)
Direção: Susana Nobre
Roteiro: Susana Nobre

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