Mostra SP: Bergman Island

Uma primeira constatação reconfortante sobre Bergman Island: Mia Hansen-Løve não cai na armadilha de fazer um filme bergmaniano só porque está filmando na ilha de Fårö. Ela tem como protagonista um casal de diretores-roteiristas com algumas angústias internas, mas que nunca chegam ao nível de intensidade à lá Bergman e seus martírios da alma. O filme de Hansen-Løve opera num tom mais ameno, mas nem por isso mesmo forte e interessante de acompanhar.

É também um filme mais solar (se isso for possível na paisagem nórdica) ou, pelo menos, em grande medida iluminado pelo dia, o que não necessariamente esconde as aflições de seus personagens, mas as torna mais costumeiras, cotidianas e menos sombrias. Curiosamente, é uma impressão parecida com a de um filme como Tout Est Pardonné, o longa de estreia de Hansen-Løve lançado em 2007 – as dores de uma filha e seu pai ausente registradas em pleno verão francês. Agora, muito mais madura, a cineasta resgata esse tom (algo que não necessariamente ela abandonou nos últimos filmes, apenas acresceu a demais elementos) talvez para impedir que o excesso dramático possa tomar conta da trama (o que me parece difícil vindo dela) e constrói um retrato íntimo de uma personagem em processo de escrita, que também é uma forma de autoconhecimento.

Outra feliz constatação: a presença espiritual de Bergman, sua biografia e sua obra, pairam na atmosfera (do filme e da ilha) como uma presença intransponível, às vezes como peso mesmo, algo que não poderia ser diferente num filme passado no lugar onde ele se fixou e dirigiu diversos de seus filmes mais icônicos; no entanto, a constância “Bergman” é escancarada no filme sem pudores, como recorrência, mas nunca usada como muleta para a narrativa (ou narrativas) que se seguem. Os personagens visitam a casa onde morou e os cenário onde o mestre sueco dirigiu cenas fundamentais de sua carreira, eles participam de atividades e discussões sobre cinema (o deles e o de Bergman), fazem tours turísticos cercados pelo imaginário bergmaniano, até mesmo podem escolher o que assistir da vasta obra do cineasta, e tudo isso está muito bem inserido na trama que se desenrola ali, nunca como cacoete do “cineasta que fala de um grande cineasta”.

O longa nunca se perde nas menções cinéfilas (como uma espécie de fan service ou algo do tipo), primeiro porque faz todo sentido que aquele casal fale sobre isso e participe de todas essas situações, elencando todas as referências possíveis, pela própria função que eles exercem ali, como também existem outras coisas em jogo que passam a figurar no centro da trama. É quando notamos que o filme pende mais para Chris (Vicky Krieps) e seus bloqueios criativos. Ela e Tony (Tim Roth) estão, cada qual, desenvolvendo um novo roteiro para si, ambos cineastas com carreiras independentes. Mas em alguma medida, ele parece mais confortável naquele ambiente e consegue desenvolver melhor sua escrita, enquanto ela passa por dificuldades em criar.

O filme é muito sutil na maneira como leva adiante esse fato e o faz reverberar na vida do casal, talvez apontando para uma crise no relacionamento, muito embora nenhum desses dois conflitos ganham ares de explosão ou intensidade na trama – eles apenas se mostram para a personagem. Quando o filme chega a esse ponto – e parece fadado a estancar aí –, ele nos oferece uma bela virada que apresenta um novo casal a entrar em cena: os jovens Amy (Mia Wasikowska) e Joseph (Anders Danielsen Lie), eles que já foram namorados antes, agora estão separados e se reencontram na ilha de Fårö para celebrar o casamento de amigos em comum.

Com isso, o filme ganha um respiro renovador, muito embora o clima quase que permanece o mesmo, bem como as angústias desse novo casal também não se excedam em momento nenhum – e os conflitos internos de Amy ainda reverberam, de alguma forma, nas inquietações de Chris. No fundo, Amy é o mais próximo que o filme chega de construir uma personagem tipicamente bergmaniana, no sentido da intensidade das angústias interiores. Nomeadamente, ela poderia ser uma irmã próxima da protagonista de Monika e o Desejo – filme que, aliás, é citado com mais ênfase por Chris em algum momento no início do longa – por seu comportamento atrevido, de muita autonomia e ainda por certa independência sexual.

Sua energia contagia o longa e o expande para uma criação que centraliza a experiência feminina diante das incertezas e das aflições vivenciadas no seu contexto de relacionamentos e carências sentimentais. Isso é importante também para Chis – sobretudo para ela – porque o filme caminhava para uma valorização da figura masculina, tanto em termos profissionais como emocionais, e o que Mia Hansen-Løve promove aqui é um movimento oposto, talvez até num sentido muito pessoal. Em última medida, Bergman Island é também um elogio aos caminhos da criação artística, sempre árduos e duramente reveladores, como não poderia ser diferente em terreno bergmaniano.

Bergman Island (Idem, França/Bélgica/Alemanha/Suécia/México, 2021)
Direção: Mia Hansen-Løve
Roteiro: Mia Hansen-Løve

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