Mostra Cinema Conquista – Diário #6

A Peruca de Aquiles (RJ/BR, 2010)
Dir: Paulo Tiefenthaler

Artistas vão ao morro em busca de drogas. Chegando lá são confundidos com policiais à paisana e se vêem em maus bocados. Boa ideia a desse curta, embora realização não seja das melhores. A despeito da caricatura dos traficantes e dos artifícios de roteiro para que seu argumento funcione (como a forma encontrada para que se dê a confusão de identidades), A Peruca de Aquiles só ganha pontos no conceito visual, muito bem tratado, em especial a boa fotografia.

Mas no fim das contas, o curta tenta trazer valor para o trabalho do ator, conferindo potência e importância à encenação (a cena em que o protagonista usa a peruca do título e recita seu texto coroa corretamente essa proposta). Existe ainda uma tentativa de dar um certa cutucada a essa mesma classe artística e seu contato com o mundo das drogas (como usuários, diga-se), conferindo um ar policial ao curta. Mas assim ele pouco funciona porque o pouco cuidado na construção dos personagens impede a formação dessa atmosfera. Esse é seu verdadeiro calcanhar.

Olho de Boi (BA/BR, 2011)
Dir: Diego Lisboa

Um garoto pobre e sua relação com a fé. Olho de Boi usa um conto moral para reforçar a ideia de crença religiosa a partir do imaginário infanto-juvenil, inserida numa comunidade periférica de Salvador. O menino acuado e ameaçado pelos garotos mais velhos depois de ganhar de presente um sapato usado (mas de grande utilidade) é o cerne da história. Muito bem produzido, o curta só peca pelo moralismo da conclusão de sua história.

Algumas outras coisas incomodam na narrativa, como a caricatura com que a figura dos pais do garoto é construída, sempre expansivos e grosseiros, ou mesmo a composição exagerada do Preto Velho de Carlinhos Brown. Mas o pior mesmo é o tom final que correlaciona a falta de fé (ou de crença suficiente) às consequências da violência e da dor. O curta até se esforça para não ser somente uma lição de moral religiosa, através da potencialidade da imaginação, mas ainda assim não consegue fugir de seu destino moralista. A menos que se pense na necessidade de abandonar a crença religiosa como entidade salvadora que deve guiar nossas ações. Mas o próprio filme não parece comprar essa ideia.

Terra Deu, Terra Come (MG/BR, 2009)
Dir: Rodrigo Siqueira


A Morte é figura presente em Terra Deu, Terra Come. O documentário aporta numa comunidade remanescente quilombola, o Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, no interior de Minas Gerais e tenta resgatar as tradições antigas daquele povo. O documentário parece resgatar um espaço mítico que demonstra uma relação peculiar daquela gente com a ideia de finitude da vida.

O filme começa com imagens incríveis do velório de um homem de 120 nos de idade. Seu Pedro é quem conduzirá a cerimônia de cortejo fúnebre e enterro, se tornando figura central da narrativa. Os diretores aproveitam para extrair desse senhor a forma com que eles entendem e lidam com a morte, assim como com a ideia das forças não-humanas que fazem mal ao homem, ou que com ele faz pactos (e fica a dúvida se João Batista, o morto, para viver 120 anos, não seria um deles). Tudo isso dota a história de um tom místico dos mais interessantes (e também respeitosos).

Mas entre os momentos que marcam os passos do funeral (que se concentram no início e fim do filme), o diretor Rodrigo Siqueira aproveita para explorar as histórias e crenças antigas daquele povo, que vieram trabalhar nas minas de garimpo, e que guardam ancestralidade com africanos conhecidos como vissungos, resgatando inclusive o dialeto banguela, sendo seu Pedro um dos poucos que ainda dominam esses conhecimentos.

Já ouvi dizer que o filme promove uma mistura de Jean Rouch com Guimarães Rosa. Nada mais pertinente. O tom etnográfico se mistura ao universo interiorano e humilde de um povo que carrega riqueza na tradição que guarda, inclusive pela linguagem um tanto embolada que eles falam (não à toa o filme é todo legendado, embora não seja necessariamente difícil de entender a fala dos personagens).

Mas o final do filme guarda ainda uma surpresa quando a narrativa revelar sua verdadeira faceta de intersecção entre documentário e ficção (e aí faz mais sentido que o filme comece com uma fábula contada por seu Pedro sobre a figura da Morte e de sua função de levar as pessoas embora dessa vida). Aí, a encenação, que já aparecia no decorrer da narrativa a partir das histórias de seu Pedro (por vezes incorporando-as, inclusive, usando uma máscara de papelão), reforça ainda mais a atmosfera metafísica e fabular do filme, ajudada por uma fotografia forte e contrastante entre claro e escura. E ainda realça a linha entre verdade e recriação.

De qualquer forma, seja documentário ou ficção, Terra Deu, Terra Come é uma forma, antes de tudo. Mostra um caminho possível para revelar diante da câmera as relações entre vida e morte, bem e mal, homem e aquilo que está acima dele. O desconhecido, portanto.

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