A morte na Bahia

Quincas Berro D’Água (Idem, Brasil, 2010)
Dir: Sérgio Machado


Sérgio Machado, como bom baiano, se debruçou com propriedade de observador-conhecedor de sua terra natal. Se em Cidade Baixa ele optou por um tom mais neorrealista para filmar a conturbada relação entre dois amigos e uma prostituta na periferia de Salvador, com uma pitada de poesia bruta, seu mais novo projeto vai por caminho distinto: trata-se da adaptação de uma das obras mais escrachados feitas pelo grande escritor baiano Jorge Amado, A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água.

A narrativa transpira uma boemia aguda abraçada pelo filme para construir essa atmosfera de total curtição mesmo diante da morte. Quincas, ex-funcionário público e beberrão nato, eterno mulherengo conhecido das noites de Salvador, morre na véspera de seu aniversário. A comoção é geral nas ruelas da cidade baixa.

Daí, surge um grande impasse que ganha contornos de comentário social. A família do morto (na verdade, uma filha renegada pelo pai), do alto de uma burguesia média, surge para fazer as últimas homenagens ao defunto. Mas é antecipada pelos amigos da periferia, bêbados, compadres, pais e filhos de santo, que disputam a atenção no enterro. Melhor quando seus incansáveis amigos de copo fogem com o corpo do homem para que ele viva sua última noitada de farra.

O filme assume sua característica de comédia rasgada e esse é seu maior trunfo. A última aventura noturna de Quincas, arrastado de um canto para outro, tem no nonsense certo equilíbrio encontrado no roteiro que nunca cai no conto gratuito. Sérgio Machado ainda dá a dimensão para que seus personagens possam crescer na tela.

E a despeito de seu elenco soar global demais (talvez uma estratégia para atrair mais público), é ali que reside uma grande força do filme porque Paulo José confere muita personalidade a seu Quincas (mesmo estando morto), Mariana Ximenes parece ter crescido como atriz porque sustenta bem a personagem da filha na sua mágoa velada pelo pai, Marieta Severo encarna muito bem e com sotaque a dona do bordel e grande amor da vida de Quincas, além de um Irandhir Santos que se destaca como um dos fiéis escudeiros do então defunto.

Além disso, a produção apresenta um salto bem bom de desenvolvimento. Uma fotografia quente e pesada dá vida à noite atrevida de Salvador com suas ruelas, becos e ladeiras intermináveis. Direção de arte e figurinos dão aquele charme boêmio de descuido, em contraste com a classe de alguns personagens (seja a família rica, seja a dona do bordel). Ao fim, a história pode parecer alegórica demais, talvez para mostrar que, nessa Bahia, a morte se atreva a ser um tanto diferente.

PS: Cecília Amado, neta de Jorge, está finalizando Capitães de Areia, mais uma adaptação cinematográfica de uma obra do autor. Se o resultado for tão bom como esse aqui, estamos no lucro.

3 thoughts on “A morte na Bahia

  1. Wallace, também tenho o Cidade Baixa em alta conta, realmente um dos melhores filmes nacionais dos últimos anos. E por mais que Quincas não chegue ao patamar do filme anterior so Machado, o filme é bom, viu. Vale muito a pena ver! O tipo de comédia escrachada, mas não rídicula.

    Bruno, se tiver a oportunidade de ver no cinema, não perde, cara. Apesar das três estrelas, o filme é bom e vale a pena para dar umas boas risadas.

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