História de formação

Avanti
Popolo
(Idem, Brasil, 2013)
Dir:
Michael Warhmann
Filhos
que retornam para casa e remexem no baú de memórias da própria família já foram
temas de muitas histórias. Em Avanti
Popolo
esse elemento impulsionador está lá, embora o filme trabalhe com uma
série de outras questões que perpassam por essa trama melancólica. Noções como
as de pátria e nacionalismo, acontecimentos particulares e coletivos, o passado
histórico como fator de formação do indivíduo e de um povo e mesmo a relação com a imagem
filmada, caseira, tudo isso está em jogo aqui.
É
possível mesmo perguntar aonde o filme quer chegar com todos esses pontos,
embaralhados pelo percurso de seus personagens. Ou antes, pode-se pensar num
cineasta que tateia uma maneira de colocar em cena as questões que lhe são
caras, de forma nunca banal, sem a rigidez de um roteiro previsível. O diretor
Michael Wahrmann, estreando no longa-metragem, parece mais disposto a abrir seu
filme aos fragmentos de memória e ao moroso reencontro dos dois protagonistas.  

no centro dessa história uma família ferida. As relações entre pai (vivido pelo grande cineasta Carlos
Reichenbach, morto há dois anos) e filho (André Gatti) são de um distanciamento evidente. O pai,
por exemplo, está mais interessado em brincar com sua cachorra Baleia do que
receber e preparar um lugar para o filho na casa; o empoeirado sofá da sala lhe
servirá de pouso durante essa visita forçada, depois de rejeitado pela
esposa. Aqui há de se notar a atmosfera expressionista que esse cômodo carrega, torto e fantasmagórico, tradução
ideal do mundo decadente daqueles personagens.
Mas
é via imagens de Super-8 que o filho resgata, meio sem ter o que fazer ali, um
passado (feliz?) de sua família. São registros caseiros, quase banais, mas
representativos do que agregam em termos de reminiscência. Apontam também
para um segundo irmão que não está mais ali com eles. É aí que memória
individual e coletiva misturam-se. O Brasil da Ditadura Militar é o país onde
esses filhos cresceram e que levou um deles para a militância política, sem ter
tido chance de voltar. É muito tocante que essa história reviva, mesmo em
poucos momentos, a partir dessas imagens amadoras em película, tão frágeis e
descascadas quanto as paredes daquela casa (e é ali que a mais icônica delas é
projetada).
Avati Popolo é um trabalho que
sugere muito, nada aqui nos é dado de bandeja. O filme abre com uma transmissão
radiofônica (na voz do próprio diretor) que apela para uma certa integração do
Brasil ao contexto da América Latina. É ela também que fecha o filme, invocando
a canção italiana tema da luta socialista, quando o sonho de conquista dessa
ordem ainda era a luta de muitos.
É
assim que tais elementos, inicialmente caprichosos numa narrativa de
rememoração e patriotismo, ganham forma enquanto o longa avança, mesmo aquelas aparentemente
mais banais: um taxista aficionado por hinos nacionais de diversos países, um
sujeito que lança as bases para um novo movimento cinematográfico, o hilário Dogma
2002; cada uma dessas “brincadeiras” servem aos propósitos do nacionalismo e da
investigação da imagem fílmica que o longa propõe.

Ainda
assim, há, por vezes, a impressão de algo inacabado, disforme, como um filme
lançado aos acasos. Quando terminam os enxutos 72 minutos de duração, aquela
história parece ter ainda mais coisas pra contar. De qualquer forma, há um
grande valor em Avanti Popolo porque
ele olha para o passado recente de uma família, definidor dos comportamentos de
das lembranças atuais de seus personagens, como forma também de olhar para um
Brasil em formação e em busca de identidade. Mas, acima de tudo, um país que possui uma dificuldade enorme de lidar com seu passado histórico e com as imagens que
gerou desse momento.

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